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É boa para o bolso do consumidor e para o meio ambiente, diz professor.

 O alto custo da energia elétrica no Brasil tem levado muitas pessoas a buscar soluções que diminuam o valor da conta de luz. Uma alternativa interessante para as residências pode ser a energia solar que, segundo especialista, é “boa para o bolso, para o país e para o mundo”.

O potencial de geração de energia solar no Brasil é imenso, mas ainda subaproveitado, principalmente em residências. Isso se explica pelo fato de muitas pessoas não terem noção do que é necessário para transformar tetos ou áreas abertas em pequenas geradoras de energia por meio de placas solares. Algo que, de acordo com o professor do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade de Brasília (UnB) Rafael Amaral Shayani, é mais simples do que parece, e cujos benefícios vão além de uma conta de luz menos onerosa.

“A energia solar de uso residencial, que é chamada de geração de distribuída, é boa para o bolso do consumidor. Mas também é boa para o país porque o Brasil é um país em desenvolvimento que vai precisar de muita energia para crescer; e para o mundo, porque protege o meio ambiente, já que não emite gases de efeito estufa”, destaca o engenheiro eletricista.

Boa para o bolso

A energia solar pode resultar em diminuição significativa dos gastos com a conta de luz. Segundo Shayani , um investimento entre R$ 12 mil e 15 mil pode reduzir em até 90% a conta de energia.

“A pessoa, então, passa a pagar apenas a parcela mínima, que é o consumo mínimo, uma tarifa de disponibilidade do serviço”. O engenheiro diz que o investimento é recuperado em cerca de cinco anos e que o sistema dura de 20 a 25 anos.

Boa para o país

A energia solar é também boa para o país, para lidar com a expectativa de crescimento da demanda de energia, conforme o aumento do número de fábricas e indústrias previsto para os próximos anos.

“A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) prevê que até 2050 o Brasil vá triplicar o consumo de eletricidade, até em função do aumento populacional e das consequências disso para o setor produtivo, já que acarretará em mais uso de eletrodomésticos”, afirma Shayani.

Boa para o planeta

“Quando a energia é gerada no telhado da sua casa, você não está queimando gás natural para gerar eletricidade. Você reduz a necessidade de hidrelétricas, que alagam florestas, ou de carvão ou gás queimados para a geração de energia por usinas térmicas. Portanto, é uma forma muito boa de contribuir para proteger o meio ambiente”, complementa o professor.

Para Shayani, um dos grandes desafios mundiais é gerar mais eletricidade e reduzir as emissões de gases de efeito estufa. “Nesse sentido, a energia solar vem como solução. Quanto mais pessoas a adotarem, mais energia o país produzirá, e menos energias fosseis precisarão ser usadas”, enfatiza o professor, que indica também o uso de aquecimento solar por meio de tubos de plástico para, com o calor do Sol, esquentar a água do chuveiro.

Placas fotovoltaicas

A grande vantagem do uso de placas fotovoltaicas, segundo Shayani, é a possibilidade de “devolver” parte da energia consumida para a rede de energia fornecida pela distribuidora local.

Para “devolver” energia à rede fornecedora, é necessário ter, além do painel solar, um inversor, já que a energia solar gera tensão contínua, e as tomadas das residências usam energia alternada.

“Você liga seu sistema de energia solar a uma rede elétrica da distribuidora que atende à cidade. Ou seja, instala o sistema no telhado e ligao no mesmo disjuntor que a companhia elétrica tem na sua casa. É o sistema mais barato porque não depende de baterias que armazenem a energia”.

De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) há, no Brasil, 775.972 sistemas solares desse tipo já instalados.

Chuvas e tempo nublado

Interligar as placas à rede distribuidora de energia é também solução para evitar falta de energia em dias de chuva, tempo nublado, ou mesmo à noite, quando não há sol. “É como se o relógio medidor de energia rodasse para trás quando é dia e o consumo é menor. À noite, então, quando não há sol, você vai pegar de volta essa energia, usando a energia das hidrelétricas brasileiras. Aí o relógio vai para  frente”.

No fim do mês, se a energia fornecida de dia for igual à recebida nos períodos sem luz solar, é como se o relógio que marca o consumo ficasse no zero. “O nome oficial disso é Sistema de Compensação de Energia. Gera-se mais energia de dia para compensar o uso à noite, quando não tem energia solar. É uma coisa interessante porque não precisa de baterias para armazenamento, que são muito caras e altamente poluentes.”

Baterias

Em geral esse equipamento com baterias é usado em regiões isoladas, onde não há fornecimento de energia por companhias elétricas. É o caso de algumas comunidades do interior da Amazônia, na floresta.

"Além de caras e danosas ao meio ambiente, essas baterias são como as de carro: estragam-se muito rápido e precisam ser trocadas a cada três ou quatro anos. O custo adicional delas faz o sistema [de captação e geração de energia] quase dobrar de preço”, estima o professor.

Como funcionam

A energia solar é uma inovação tecnológica que difere das outras formas de geração de eletricidade porque é um sistema eletrônico. É feita a partir de uma pedra de silício, substância que, depois do oxigênio, é a mais abundante na Terra.

“A crosta terrestre é feita de silício, material usado nos painéis solares. Quando a luz solar incide sobre ele, pula um elétron, o que acaba gerando energia. Essa corrente elétrica sai do telhado e entra nos equipamentos, energizando a casa”, detalha o especialista.

Legislação

A legislação da Aneel permite quatro modalidades de geração distribuída de energia. A primeira é a geração na própria unidade consumidora, quando a pessoa a instala no telhado da própria casa. A segunda é chamada autoconsumo remoto, que é quando a pessoa tem, por exemplo, duas residências em um mesmo estado. Ela pode colocar energia solar no telhado da casa e a energia que é gerada lá compensa o consumo da outra residência.

“Existe, ainda, a modalidade de múltiplas unidades consumidoras. É o caso dos condomínios, que podem colocar placas nos telhados para abastecer a área comum. Há também a possibilidade de moradores dos apartamentos colocarem o equipamento em telhados, e a energia ser rateada entre as unidades que fizeram o investimento.”

A quarta modalidade é a de geração compartilhada que, segundo o especialista, abrange “uma usina maior à qual as pessoas podem se associar para serem beneficiadas com abatimento na conta de energia”.

Custo dos equipamentos

O preço do sistema depende de dois fatores principais. O primeiro é saber quanto de energia a residência consome. “Para saber isso, basta olhar a fatura enviada pela concessionaria de energia todo mês. O consumo é calculado a partir da média mensal. No verão, gera-se mais eletricidade e, no inverno menos. Mas, na média do ano, a pessoa pode gerar toda energia da casa”, explica Rafael Shayani.

“Depende também de quanto sol tem na região. O Brasil em geral é muito ensolarado. O local com menos sol no Brasil tem mais sol do que a Alemanha inteira, que é um dos líderes no uso de energia solar. Então, se você mora em um local com muito sol, seu sistema de geração pode ser menor, não sendo necessárias tantas placas”, acrescenta.

Segundo o professor, o consumo típico de uma residência brasileira fica em torno de 10 quilowatts-hora por dia. “Normalmente, temos cinco horas de sol forte por dia. Considerando essa média como referência, precisamos então de um sistema de energia solar de mais ou menos 2 kw instalado no telhado da casa. Ele vai ocupar área pequena do telhado e gerar energia para, na média do ano, atender tudo.”

O custo do equipamento varia de acordo com a cotação do dólar, que está na faixa de R$ 5,50. “Atualmente, esse equipamento deve custar entre R$ 12 mil e 15 mil, mas, com ele instalado, a conta de luz pode cair para o valor mínimo cobrado pela concessionária. O investimento é recuperado nos primeiros três ou cinco anos. Depois, fica 20 anos pagando só a tarifa mínima de energia elétrica, que é cobrada para a manutenção da rede.”

O equipamento deve ser instalado por uma empresa específica, porque é necessário registro no Conselho de Engenharia, de forma a comprovar que a instalação é segura e atende às regras de segurança da distribuidora de energia.

“O primeiro passo é contatar, na sua cidade, uma empresa de equipamentos para geração de energia solar, um ramo que cresceu muito nos últimos anos. Tem milhares de empresas no Brasil. Peça a eles um orçamento. Eles instalam o equipamento, entram em contato com a distribuidora que, depois, fiscaliza a instalação para ver se tudo está adequado para, enfim, ligar o sistema. Isso tudo pode ser feito em até 30 dias”, afirma o engenheiro. (Fonte: Agência Brasil)

 

Psicóloga sugere uma série de ações para um ambiente seguro e acolhedor no trabalho, que ajuda a diminuir o alto índice de casos de ansiedade e depressão.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a economia global tem um prejuízo econômico de cerca de US$ 1 trilhão por ano devido a perda de produtividade decorrente de casos de ansiedade e depressão; e o Brasil é o 5º país mais ansioso do mundo, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desta forma, para Laíne Oliveira, psicóloga e especialista em Gestão de Saúde Emocional da Howden Harmonia Corretora de Seguros, adotar medidas de prevenção é a melhor estratégia para as empresas junto a seus colaboradores. 

A Howden Harmonia tem uma série de iniciativas que vão além da Campanha Janeiro Branco, pois acontecem ao longo do ano de modo a ofertar atenção especial para as questões relacionadas à saúde mental e emocional. “Entre as ações está uma boa comunicação interna. Acreditamos que ao incentivar um ambiente seguro e acolhedor, criamos uma ponte para que nossos colaboradores busquem ajuda quando necessário”, explica Laíne. 

 A empresa realiza lives, vídeos e informativos, com o objetivo de manter os colaboradores conectados o tempo todo e para que saibam como e a quem recorrer em caso de necessidade. “Por meio de ações e materiais educativos, buscamos muni-los de toda a informação possível para que a responsabilidade do cuidado com a saúde seja compartilhada entre a empresa e colaborador”, completa a psicóloga.

 Também são disponibilizados pela Howden Harmonia serviços da área de gestão médica, composta por médico, enfermeira, assistente social e psicóloga, com escuta acolhedora e sigilosa, além de orientação para, se necessário, o colaborador buscar ajuda profissional. “Enxergamos esse cuidado como uma de nossas prioridades”, afirma Laíne. 


Estima-se que na Howden Harmonia, ao menos 30% dos colaboradores buscaram algum atendimento psicológico no último ano, em sua maioria com sintomas de ansiedade, (leve e moderada) e, muitas vezes, decorrentes da pandemia. Segundo Laíne, estes casos rapidamente foram identificados e direcionados para o tratamento adequado, de modo a evitar a evolução para um quadro ansioso grave. Os que precisaram de uma intervenção maior foram direcionados para outras especialidades. 

Laíne explica que, de modo geral, todos sentiram as mudanças e consequências dos últimos anos, alguns passaram por momentos bem delicados, perderam pessoas que amam, sofreram com o distanciamento social, insegurança, medo, e, também, a adaptação ao novo formato de trabalho e rotina. “O aumento dos casos trouxe consigo esse olhar mais atento e a empresa passou a estender o suporte emocional e assistencial aos familiares de seus colaboradores”.  

Proximidade e identificação

 Parte da estratégia preventiva adotada pela empresa se intensificou no cuidado com os colaboradores, se mantendo presente, tanto através do atendimento psicológico e da equipe multidisciplinar, como na realização de videoconferências, com o envio de kits para a casa de cada um, para que percebessem a sua importância e ficassem conectados. 

Para identificar um colaborador que precisa de apoio ou tratamento, segundo Laíne, além do acesso que eles têm aos canais de comunicação com a área médica, há a intervenção que poderá ser feita pelo líder direto, com encaminhamento do colaborador para a psicóloga, ao notar um quadro de absenteísmo ou queda na produtividade. 

Laíne ressalta ainda que o contato com o profissional de saúde mental da empresa é opcional, e tem como objetivo a orientação e o auxílio aos colaboradores quando há uma causa pertinente. “Os atendimentos só são realizados mediante a vontade e consentimento do colaborador”. O monitoramento se dá ao longo das semanas para compreender se a queixa foi pontual e resolvida, ou se haverá a necessidade de outras formas de intervenção. “O serviço oferecido não se configura como a psicoterapia, que é incentivada a ser realizada com outro profissional. O objetivo deste primeiro contato com a psicóloga interna é compreender a demanda e orientar da melhor maneira. Porém, quando a empresa identifica casos de transtorno de saúde mental entre os seus colaboradores deve demonstrar solidariedade e empatia, certificar-se de que este saberá como e onde procurar ajuda, se dispor em estabelecer a ponte entre o colaborador e os profissionais”, explica. 

Dicas para as empresas

 Para Laíne, o mais importante para manter a saúde mental dos colaboradores é a empresa proporcionar um ambiente de confiança, livre de preconceitos e críticas. Algumas dicas:

. Adotar medidas de prevenção, como palestras, rodas de bate-papo, material informativo; 

. atentar-se à sobrecarga de trabalho;

. proporcionar ao colaborador a possibilidade de crescimento e desenvolvimento contínuo, pois o incentivo corrobora com a maior satisfação profissional;

. criar times diversos e inclusivos, que proporcionem trocas de experiências;

. incentivar as pausas, seja para o café ou short friday, pois o descanso é responsável pelo aumento da produtividade e de um trabalho mais assertivo;

. garantir o sigilo das informações para que o colaborador se sinta seguro em compartilhar suas questões; 

. monitorar os níveis de estresse da empresa, de modo que consiga nortear possíveis gatilhos e, assim, agir de maneira preventiva; 

. realizar treinamento de gestão adequado para que as lideranças estejam sensíveis e atentas às queixas de sua equipe e possam intervir precocemente. 

Nova Classificação da Síndrome de Burnout

Desde o dia 1º de janeiro de 2022, o Burnout ganhou uma nova Classificação Internacional de Doenças (CID 11), como uma síndrome ocupacional, quer dizer, as empresas passam a ter responsabilidade direta e indireta pela saúde emocional dos colaboradores.

Segundo Laíne, a Síndrome de Burnout, apesar de ter a sua classificação recente, não é nova, os primeiros sintomas e casos foram identificados nos anos 70, por Herbert Freudenberger, que já usava o termo Burnout para identificar as equipes sobrecarregadas. “A síndrome do esgotamento profissional desperta um olhar diferente para o trabalho e trabalhador, uma preocupação maior no que diz respeito a medidas preventivas, e um olhar mais atento à saúde mental, da qual a responsabilidade deve ser compartilhada”, explica.

Segundo a psicóloga, neste caso a empresa é responsável por identificar os possíveis fatores estressores dentro de suas organizações e, consequentemente, propor medidas de resoluções de conflitos e agir de forma preventiva. O colaborador, por sua vez, é responsável por compreender suas limitações, medir os níveis de estresse, quando e como eles estão o afetando de maneira individual, e pedir ajuda quando necessário. Dessa forma, será possível prever equilíbrio, qualidade de vida e saúde integral. “É valido dizer ainda que casos de burnout, apesar de não serem recentes, têm se tornado cada vez mais comuns, mas ninguém tem ao certo todas as respostas do que efetivamente funcionará ou não. O mais importante é ser sensível à dor do outro”, conclui. 

"Eu só estou aqui, de pé, porque desde que afundei meus amigos organizaram um rodízio pra ficar sempre gente na minha casa", escreveu o youtuber Felipe Neto. "A depressão é uma doença da mente, como a gastrite é uma doença do estômago."

O maior influencer do Brasil detalhou recentemente seus problemas com a saúde mental em uma série de aparições nas redes sociais. Desabafos públicos sobre o tema, que chegam a dezenas de milhões de pessoas, também já foram feitos por outros influenciadores, como o comediante Whindersson Nunes.

Antes restritas ao âmbito privado, conversas sobre depressão, ansiedade, bipolaridade, síndrome do pânico e outros transtornos têm se livrado da atmosfera de segredo e constrangimento do passado para ajudar a romper estigmas e estimular pessoas a buscar tratamento.

"A gente acabava encarcerando o sofrimento, a loucura, as contradições humanas na vida privada. Algo como 'não traga isso aqui para a rua, deixe lá no seu quarto, na sua casa, na sua família, mas não divida isso, não torne isso um assunto coletivo", diz o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro Reinvenção da Intimidade - Políticas do Sofrimento Cotidiano.

Para ele, há um movimento positivo em se mostrar mais vulnerável, inclusive do ponto de vista cognitivo: "Nossas vulnerabilidades que antes precisavam ser escondidas na vida privada são uma matéria-prima para o laço com o outro. Porque pode ser de cuidado mútuo, pode ser de reflexão conjunta, pode ser de partilha de afetos".

Daniel Martins de Barros, do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas de São Paulo, diz que o impacto de revelações públicas sobre o enfrentamento da depressão é "basicamente na diminuição do estigma. Parece pouco, mas ele é brutal, é uma das principais causas para uma pessoa não buscar tratamento".

O psiquiatra afirma que esse atual momento "nem de longe significa que o estigma deixou de existir. Há o preconceito, que passa por um componente afetivo, emocional, e se expressa em posturas como 'eu não me sinto bem ao estar perto de uma pessoa com esse problema'. E há o estereótipo: um aspecto racional, cognitivo, materializado em achar que se conhece exatamente o comportamento de alguém, por exemplo, com síndrome do pânico".

O que as pesquisas dizem?

Alguns estudos já mostraram resultados benéficos quando personalidades de alcance na internet falam sobre saúde mental. Uma pesquisa examinou os efeitos sobre homens negros nos Estados Unidos depois que o rapper Kid Cudi expôs seus problemas com depressão.

A análise da repercussão no Twitter aponta que as revelações de Kid Cudi ajudaram a engajar no debate sobre saúde mental um perfil populacional muitas vezes sujeito a pressões do ideal de masculinidade - que historicamente trata a depressão com termos como "frescura".

Já um trabalho de cientistas dos EUA e de Taiwan focou em microcelebridades (referências em nichos específicos, como games) que abordam seus problemas emocionais em lives no YouTube e na plataforma Twitch.

Falar do tema ajuda os seguidores a perceberem os riscos da depressão. Faz também, segundo o estudo, com que essas microcelebridades pareçam mais autênticas - embora surjam dúvidas entre o público sobre a credibilidade delas como porta-vozes do assunto.

Mas o pesquisador brasileiro Felipe Giuntini, da empresa Sidia, detectou algo diferente sobre os efeitos dessa conversa na internet.

Em seu trabalho de doutorado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP em São Carlos, ele formulou um sistema de inteligência artificial que analisou posts de 415 mil participantes da maior comunidade sobre depressão do site Reddit. O estudo contou com o suporte do departamento de psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFScar)

"Nós notamos que os usuários pioraram seus sentimentos no ambiente de suporte mútuo", afirma Giuntini, que utilizou um período de 10 anos para avaliação das postagens.

"Os usuários que entraram com depressão leve saíram com depressão moderada. E os usuários que entraram com uma depressão moderada evoluíram para um quadro mais grave. Não notamos casos de melhora."

A pesquisa sugere que ambientes como esse, em que pacientes de depressão trocam experiências, deveriam contar com especialistas em saúde mental no papel de moderadores. Para Giuntini, "não adianta você apenas agrupar pessoas com depressão. A coisa não vai melhorar".

A dinâmica das redes sociais

Para o psicanalista Christian Dunker, essa cultura da conversa nas redes sociais ainda está se consolidando. "Acho que é um fenômeno amplo, geral, mas que ainda está sobre o impacto da novidade. Nós ainda estamos formando, vamos dizer assim, uma cultura de avaliação sobre as produções em redes sociais. A gente vê fenômenos de regulação disso. Por exemplo, o cancelamento ou a superpopularidade de alguns influenciadores."

Paula Sibilia, professora de estudos de mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio, e autora do livro O Show do Eu: A Intimidade como Espetáculo diz que "a relação destes fenômenos com o crescente uso das tecnologias digitais de comunicação e informação é direta e evidente".

No entanto, ela considera que são "transformações socioculturais bem complexas que vêm ocorrendo nas últimas décadas, muito profundas e significativas, que estão sendo acompanhadas e alavancadas pela invenção e rápida adoção de dispositivos técnicos adequados para a sua canalização".

A professora da UFF observa que "tem ocorrido não apenas um aumento dos diagnósticos de transtornos psiquiátricos como a depressão, a ansiedade e o pânico, mas também o reconhecimento da legitimidade (e inclusive do prestígio) desse tipo de sofrimento. Os problemas de saúde mental, portanto, vêm ganhando visibilidade e dignidade, motivando até um certo 'orgulho' de quem ousa assumir publicamente que os padece".

Isso aparentemente se conecta com a questão da autenticidade e com outros elementos do ecossistema das redes sociais - como a indústria dos influenciadores - que se tornam parte inseparável do cenário descrito acima.

"Na sociedade contemporânea, a vulnerabilidade se tornou um critério ou um capítulo do que a gente poderia chamar de indiciamento de autenticidade. Aquele que mostra suas dificuldades, que compartilha seus limites, aparece como alguém mais real, como todo mundo", diz Dunker, em uma conclusão semelhante à da pesquisa dos cientistas dos EUA e de Taiwan sobre microcelebridades.

Para Sibilia, "o eu de cada um é incessantemente trabalhado para se tornar um produto ou uma grife atraente, desdobrando toda sorte de estratégias de comunicação".

O teórico de mídias sociais e sociólogo Nathan Jurgenson afirma "que não se consegue entender a cultura da confissão hoje sem estabelecer uma relação com uma gamificação das métricas".

"A personalidade é uma moeda. A fragilidade é uma commodity", diz ele, que também é editor-chefe da revista norte-americana sobre cultura e tecnologia Real Life.

Mas o psiquiatra Martins de Barros, do HC de São Paulo, diz que o saldo é positivo a partir de todo esse cenário que vem se formando.

"Quando as pessoas se abrem, elas diminuem a ignorância, elas levam informação para o bem. Nem sempre da maneira mais precisa, mas colocam o assunto na pauta, aumentam o debate e diminuem o estigma. Quando se começa a ver pessoas produtivas, sejam artistas ou gerentes de banco, falando 'eu me trato', isso ataca os principais obstáculos ao tratamento." (Fonte: BBC News Brasil em São Paulo)

 

 

Uma metodologia para mensurar a efetividade das Instituições Financeiras de Desenvolvimento -  IFDs brasileiras.

A ABDE encerrou no último dia 14 , o prazo de inscrição para seleção de até sete associadas para participar da fase de piloto do projeto “Integrando os ODS como uma metodologia para mensurar a efetividade das IFDs brasileiras”, realizado em parceria com a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ), no âmbito do projeto FiBraS, e com o Banco de Desenvolvimento Latino Americano (CAF).

Com grande satisfação a ABDE recebeu 10 inscrições de associadas interessadas em participar do projeto, evidenciando o sucesso da iniciativa. Nessa fase, as instituições selecionadas irão implementar a metodologia que está sendo desenvolvida para alinhamento dos portfólios e integração dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nos processos internos das Instituições Financeiras de Desenvolvimento (IFDs) brasileiras. Importante ressaltar que, além da implementação, todas as instituições associadas serão convidadas a participar de treinamento sobre a metodologia desenvolvida.

Seguindo as regras estabelecidas no Edital, as seguintes instituições associadas da ABDE foram selecionadas para participar da implementação dos pilotos:

Banco da Amazônia

Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES

Badesul Desenvolvimento S.A – Agência de Fomento RS

Agência de Fomento do Paraná – Fomento Paraná

Agência de Fomento do Estado de Mato Grosso – DESENVOLVE MT

Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais – BDMG

Cooperativa Central de Crédito Rural com Interação Solidária – CENTRAL CRESOL SICOPER

A lista acima não indica ordem de classificação no processo seletivo.

A ABDE agradece o interesse de todos os associados no processo e informa que está empenhada na expansão da fase piloto do projeto, a fim de que sejam contemplados todos os associados que tenham interesse em implementar a metodologia ora em desenvolvimento. É importante ressaltar que, caso seja possível expandir o projeto, as instituições inscritas e classificadas no processo atual de seleção (Edital 001/2021) serão priorizadas.

 

Segunda, 20 Dezembro 2021 05:00

“Pets ensaio Natalino”

Animais de estimação viram modelos fotográficos para estimular adoção.

As festividades de fim de ano inspiraram a equipe da Fazenda Abrigo de Fauna a fotografar animais de estimação disponíveis para adoção com tema natalino. Os bichinhos como os cães Caramelo, Roliço e Berlim e o gato Beto, alguns dos impactados pelo rompimento da barragem B1 em Brumadinho, no estado de Minas Gerais, em 2019. Eles foram resgatados em áreas de obras ou que estavam em situação de risco nas comunidades e participaram de um ensaio como forma de sensibilizar famílias interessadas em dar a eles um novo capítulo para suas histórias.

De acordo com a Vale, dos animais domésticos resgatados desde 2019, 371 (244 cães e 127 gatos) já foram adotados. Outros 270 (230 cães e 40 gatos) ainda esperam novo lar. Segundo a supervisora da Fazenda Abrigo de Fauna, Magda Castro, houve uma queda significativa no número de adoções. Outros 17 animais resgatados foram devolvidos aos antigos donos.

 “No início da pandemia as adoções aumentaram, mas em períodos de fim de ano os números caem consideravelmente e encontramos uma quantidade ainda maior de animais abandonados. Os traumas de um abandono deixam várias cicatrizes na vida de um pet, muitas vezes é necessário a ajuda de um veterinário para reverter esse quadro” explicou.

Segundo Magda Castro, o abrigo segue recebendo animais, desde que tenham alguma relação com o rompimento da barragem ou provenientes de áreas de risco. Por outro lado, o número de adoções, a devolução de animais ao abrigo tem sido pequena.

“As devoluções são bem baixas, as que ocorreram foi por falta de adaptação do animal ao novo lar, ou mudança da família para um local onde não era permitido ter animais”, contou a supervisora do abrigo.

Processo de adoção

Em função da pandemia de covid-19, os eventos presenciais de adoção permanecem suspensos. No entanto, os interessados podem conhecer cada um dos animais na página "Me leva pra casa" (www.vale.com/melevapracasa), que já recebeu cerca de 20 mil visitas. Em 2021, 95 animais foram adotados. Por ter todo processo on-line, permite a adoção de animais de estimação por pessoas de todo país, desde que possam buscar o bichinho na Fazenda Abrigo de Fauna, em Brumadinho (MG).

“O acompanhamento tem sido de forma online, por meio de fotos, vídeos  do animal e entrevista com o tutor e quando ocorre visitas presencias seguidos todos protocolos sanitários recomendados pelas autoridades é órgãos ambientais”, disse Magda Castro.

Os veterinários são treinados para realizar entrevistas remotas e todo o processo de adoção pode ser feito à distância. A Vale acompanha o pet ao longo dos seis primeiros meses. A ação faz parte do Plano de Proteção à Fauna, apresentado pela companhia aos órgãos públicos. (Fonte: Agência Brasil)

 

Mães que sustentam sozinhas suas famílias foram atingidas em cheio pela perda de emprego e renda; mulheres são sempre as últimas a comer.

 A reportagem é de José Cícero e Mariama Correia, publicada por Agência Pública, 15-12-2021.

 Era por volta das 11 horas quando Letícia dos Santos, 32 anos, moradora da ocupação Nova Esperança, no Jardim São Luís, Zona Sul de São Paulo, começou a preparar o café da manhã para os quatro filhos que cria sozinha. Enquanto a panela com óleo aquecia, ela misturou farinha de trigo, água e açúcar. O cheiro de fritura que se alastrou pelo barraco lembrava um bolinho de chuva, mas faltavam ingredientes: “não tenho ovo, fermento, leite e canela”.

Naquele dia, as refeições da família vieram de doações. Desde que perdeu o emprego como cuidadora de idosos, em lena pandemia, Letícia depende dos donativos para alimentar os filhos. Ela também faz bicos com biscuit, doces e trabalhando em eventos para conseguir alguma renda.

 No ano passado, quando Letícia ficou desempregada, mais de 96% dos postos de trabalho fechados eram ocupados por mulheres, muitas delas mães solteiras. Segundo o IBGE, 11,5 milhões de mães cuidam dos filhos sozinha no Brasil. A insegurança alimentar é mais grave nesses lares, justamente porque as mulheres foram as mais prejudicadas pela falta de emprego e perda de renda na pandemia, como mostrou o inquérito nacional sobre insegurança alimentar no contexto da pandemia de Covid-19 no Brasil. 

Em 2020, segundo o Inquérito, a fome atinge mais as famílias sustentadas por alguém do sexo feminino, ou de raça/cor da pele autodeclarada preta/parda ou com menor escolaridade. No ano passado, 43,4 milhões de brasileiros – 20,5% da população – não tiveram acesso a alimentos em quantidades suficientes. Os percentuais de insegurança alimentar são mais altos em domicílios sustentados por uma única pessoa (66,3%), sobretudo se a responsável for mulher (73,8%). Ainda de acordo com o levantamento, mais da metade da população brasileira (55,2%) conviveu com algum grau de insegurança alimentar em 2020. Ou seja, 116,8 milhões de pessoas não tinham acesso absoluto e permanente a alimentos.

 Nutrição das mães em segundo plano

Letícia ainda amamenta o filho caçula, um bebê de três meses. Como tem anemia profunda, deveria tomar um suplemento de ferro e ter uma alimentação balanceada, mas a nutrição dela fica sempre em segundo plano. “Por causa da minha alimentação ruim, o leite do peito fica fraco”, diz.  A ajuda que a família recebe do governo encolheu de R$ 375 para R$ 217 por mês, com o fim do auxílio emergencial. O dinheiro serve basicamente para comprar as fraldas e o complemento alimentar do bebê, que custa R$ 52 por lata.

A maioria das 260 famílias que moram na ocupação Nova Esperança são chefiadas por mães solo. Lá, recebem cestas básicas que “garantem ao menos o arroz e o feijão”, diz Letícia. Também não pagam aluguel, que já foi uma fonte de dívidas para ela no passado. “Tive que sair do apartamento apenas com as roupas. Não deixaram nem trazer os meus móveis porque eu estava devendo”, relembra.

“Se não fossem as cestas básicas, tinha passado fome”, diz Zenaide Severina, 40 anos, vizinha de Letícia. Com dois filhos para criar sozinha – um adolescente de 17 e uma menina de três anos -, ela foi morar na ocupação depois de ter a casa interditada pela defesa civil em 2020. Não recebeu auxílio moradia. No mesmo ano, foi afastada do emprego por problemas respiratórios, mas ainda espera as perícias para conseguir o auxílio doença. 

 Na escola pública, a filha mais nova de Zenaide consegue ter todas as refeições. Quando as crianças estão em casa, muitas vezes a mãe come apenas uma vez por dia. “Não tenho coragem de fazer uma mistura para mim e não dar a eles”, diz. A pequena nem sempre aceita comer feijão com arroz várias vezes ao dia. Então, quando não há nada além disso para oferecer, Zenaide faz uma mamadeira de leite.  “Quando você é só, para quem vai pedir ajuda? Muitas vezes pedi ajuda ao pai da minha filha, mas ele ameaça tirar ela de mim”. 

 O pesquisador José Raimundo estuda a fome no município de São Paulo desde os anos 2000. Ele afirma categoricamente que: “uma pessoa que está fazendo uma refeição por dia, está passando fome.

 Quando não há alimentos necessários para toda a família, mesmo nos lares chefiados por homens, “as mulheres são as últimas a comer”, diz o pesquisador. “Em um domicílio que está em situação de fome ou risco de fome, as mulheres são as primeiras a sofrer porque elas tendem a priorizar a alimentação dos filhos e em seguida a dos maridos. A chance da mulher estar com fome é maior que a do homem e das crianças”, explica.

 Em uma sociedade machista, argumenta Raimundo, “o cuidado com os filhos recai sobre as mulheres, que muitas vezes ficam presas até para arrumar um emprego, porque dependem de alguém para cuidar dos seus filhos”. 

 Doações escassas, auxílios insuficientes

 “Tudo é mais difícil para uma mulher”, desabafa Ednalva do Nascimento, 43 anos, moradora do Piscinão de Ramos, no Rio de Janeiro. Ela sustenta cinco filhos com bicos de faxinas e lavagem de roupas. O caçula tem nove anos e o mais velho, que está desempregado, 25.

 “Perdi o emprego um pouco antes da pandemia. Quando a covid começou, nem faxina eu conseguia”, conta. A família não passou fome graças às doações de cestas básicas, mas até isso está se tornando mais escasso, com a desaceleração da pandemia, conta Ednalva.  “Muitas vezes deixo de comer para dar aos meus filhos. Verdura, fruta, carne só compro quando dá”, diz.

 Para ela, que só de aluguel paga R$ 500 por mês, a  promessa de aumento do auxílio brasil, criado após a extinção do Bolsa Família, para R$ 400 anima, mas não resolve os problemas. “Ajuda, mas não sei como vai ser até o fim do ano porque as doações estão diminuindo e ainda não tem emprego. Acho que ainda vai demorar muito para melhorar mesmo nossa situação”.

 Vazio nos pratos e também nas políticas públicas

 O cotidiano de insegurança alimentar repercute na saúde mental das mães solo de várias formas. Diante da incerteza sobre a condição de sustentar a própria família, Zenaide sofreu de depressão. Ela faz acompanhamento no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) da Zona Sul, mas até o acesso ao serviço de saúde é complicado porque o atendimento fica distante da casa dela. “Se eu tirar esse dinheiro do transporte faz diferença nas contas, então nem sempre vou”.

 Para controlar crises de ansiedade, ela cuida do pequeno quintal onde cultiva plantas medicinais. Conta que não recebeu o auxílio emergencial na pandemia, por estar afastada do trabalho, embora o benefício do INSS ainda não tenha sido liberado. “Também não tenho direito ao auxílio para comprar gás de cozinha porque recebo o auxílio brasil. Como não tenho direito se estou sem emprego e com filho pequeno?”, questiona.

 “O pobre é esquecido”, lamenta Letícia. Desde que foi morar na ocupação, há um ano, ela tenta, sem sucesso, arrumar vagas para os filhos na escola pública mais próxima. “Parece que quanto mais a gente é humilde, mais difícil é para conseguir as coisas. Criam programas para ajudar os pobres, mas os pobres não são socorridos”.

 A percepção de Letícia se aproxima do Informe Dhana (Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequada) 2021, que analisa os impactos da Covid-19, ações e omissões do poder público diante da crise sanitária, econômica e social. O documento alerta para “cortes orçamentários e o enfraquecimento de programas voltados à promoção de segurança alimentar no Brasil”, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa de construção de Cisternas, de grande relevância para a segurança hídrica no semiárido brasileiro, entre outros.

 É o que também pensa a ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello. Para ela, os impactos da pandemia poderiam ter sido mais amenos, caso o Governo Federal tivesse adotado medidas que fortalecessem políticas públicas e de proteção social. “Alguns países tiveram um aumento da pobreza, de problemas, mas não passaram enfrentar uma situação de fome. No Brasil, a gente viveu um acirramento gigantesco da fome e da insegurança alimentar nos seus vários níveis, porque todo colchão de proteção social que existia foi desmontando”.

 Tereza lembra que, no primeiro mês do governo Bolsonaro, a Medida Provisória 870 encerrou as atividades do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Instituído em 1993, o Consea fazia parte do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), como um espaço crucial para garantir a participação da sociedade civil nas discussões sobre acesso a alimentos.

“Ao desmontar o Consea, ele (Bolsonaro) desmontou o controle social, que é fundamental, porque o Consea era muito ativo, não só fiscalizando e cobrando o Governo Federal pelo bom funcionamento das políticas públicas, como ajudando na construção de uma política social sólida. Quando se extingue o Consea, se desorganiza toda essa agenda da transparência e do controle social”, explica Tereza. “Esse governo não liga para a alimentação saudável e não só, também não liga para a fome”, diz.

 

Segunda, 13 Dezembro 2021 05:00

“Eu existo, eu estou aqui no mapa

Da Serra do Amolar (MS) à Barão de Melgaço (MT), comunidades pantaneiras resistem para continuar em meio a avanço de projetos de degradação da vida.

Próxima à comunidade da Barra do São Lourenço encontra-se a comunidade do Amolar. O nome Amolar vem das pedras de arenito que se encontram na região, utilizadas para afiar facas e outras ferramentas. Na comunidade, assim como na Barra do São Lourenço, se vive do que se planta ou se pesca, não há comércio. Chegando lá, próximo das 10h da manhã, parece não haver ninguém. As poucas famílias do local estão na lida da agricultura. Um dos poucos que está em casa é Linder Rodrigues Nogales. Não é por menos. Com um dos pés inchado, resultado de uma fratura e uma cirurgia que não parece ter resolvido o problema, ele não pode fazer muito esforço, e trabalha mais na volta de casa.

 Linder vive sozinho atualmente. A esposa e dois filhos foram viver em Corumbá para que as crianças tivessem acesso à continuidade dos estudos. A única escola da região fica na Barra do São Lourenço, mas oferta apenas o ensino fundamental. “Minha família mora na cidade, porque não tem estudo aqui. Essa é a vida. Eu me acostumei no mato, como eu cresci aqui, meu ambiente é gostar daqui. A cidade pra mim até incomoda”, diz ele, comentando que gostaria de que houvesse mais oportunidade de estudo na região, para que a família ficasse perto.

 Com 54 anos, Linder já foi pescador, isqueiro, piloteiro de barcos turísticos e trabalhou na mineração. Após sofrer um acidente e quebrar o pé, precisou parar. Vai todo o mês para Corumbá receber o auxílio e fica de 5 a 10 dias com a família. Com frequência, enquanto conversa, utiliza a frase: “é assim a vida: lutar”. Em sua casa, através de uma placa de energia solar, é possível conectar um carregador de celular e acender três lâmpadas, que ele mostra com orgulho.

 Com a estiagem que está a Serra do Amolar, Linder diz que reza para o rio não secar. “Agora que deu a seca braba a gente fica até pensando no que vai fazer, porque se planta, tá seco, não chove. Todo dia eu rezo pra Deus que dê uma chuva e que esse rio não seja igual ao Taquari. Nós precisamos dele, não só a gente como milhões de pessoas que andam nele, que vivem nele, que pesquisam nele. Esse rio não pode secar, então a gente torce para que chova, que encha, nem que não encha para transbordar, mas pelo menos para cobrir os barrancos e dar os peixes. É assim a vida, tem que ter muita calma e paciência e como hoje está difícil, a pessoa se agonia, se apavora para sobreviver”, fala Linder.

 Seu Linder tem dois filhos de criação também. Um deles é Nilo Malves, que vive com a esposa, Cecília Malves, em uma casa vizinha. Filho de mãe guató e pai descendente de alemão, Nilo viveu até os 11 anos na aldeia indígena Uberaba e depois se fixou na Serra do Amolar. Já Cecília é natural da cidade de Corumbá. Ambos são pescadores profissionais há 15 anos, mas já não tem na pesca o principal sustento. “De uns anos pra cá, já não dá mais para se sustentar com a pesca. A isca, do ano passado para agora, está bem difícil. Então a gente planta mandioca ali do outro lado [do rio], banana, milho, feijão, faz horta. E aqui no Amolar também oferecemos esse espaço pro pessoal do turismo vir, fazer almoço, passar o dia. E vendemos também a pedra de amolar”, relata Nilo.

Nilo faz parte do combate ao fogo desde 2009. No ano passado, quando o incêndio chegou ao Amolar, ele atuou no controle das chamas, mesmo debilitado pela Covid-19. “Fui pro combate mesmo mal, mas me recuperei. No ano passado veio tudo junto, a pandemia e o fogo destruindo tudo”. O Pantanal, conta ele, sempre teve períodos de seca, mas a ação humana tem piorado a situação. “Os grandes fazendeiros desmatam muito”, aponta.

 As dificuldades da seca, com consequências para a pesca e para a agricultura, no entanto, não são as únicas ameaças que enfrentam. Cecília é diabética e, naquele dia, 16 de setembro, estava com a medição da glicose passando dos 320. A referência para níveis normais de glicemia em jejum é até 99. “Não faz tratamento com insulina, Cecília?”. A resposta vem a ilustrar mais direitos negados à comunidade. “Aqui não tem energia, não tem como ligar geladeira, como é que vou armazenar a insulina?”. O posto de saúde mais perto da Serra do Amolar está em Corumbá, a 220 quilômetros de navegação.

 Saindo do Amolar, cruzando o Rio São Lourenço e depois subindo o Rio Paraguai, em direção ao Mato Grosso, entramos em um dos seus afluentes: o Rio Cuiabá. Cerca de 420 quilômetros depois de sair da Barra do São Lourenço, voltamos a Barão de Melgaço (MT), cidade situada às margens deste rio. Contabilizando o percurso de ida e de volta entre esta cidade e as comunidades da Barra do São Lourenço e do Amolar, foram 26 horas de viagem. As condições dos rios ocasionaram em uma viagem, além de longa, perigosa. Por três vezes a pequena embarcação chocou com cangas de pedras e bancos de areia. Provavelmente devido ao choque, o tanque de gasolina rachou, resultando na perda de algumas dezenas de litros de gasolina.

 Waldileno Xavier, condutor do barco, nasceu e se criou na beira do rio e há pelo menos 25 anos trabalha com a navegação. Os percalços da viagem, diz, são apenas alguns dos exemplos dos riscos que a navegação em um rio seco apresenta. “É sempre prazeroso navegar nos nossos rios, mas é muito triste hoje ver a questão da seca, que dificulta muito o trajeto. Locais que poderíamos fazer com seis horas de viagem passamos quase doze horas navegando, com um rio muito baixo de água, tanto o Rio Cuiabá, como o Rio São Lourenço e o Rio Paraguai”. Para ele, a alteração nos rios ocorreu de forma rápida. “De cinco a seis anos para trás comecei a observar que as mudanças acontecem de forma muito rápida. De um ano para outro, locais que eram navegáveis já não são mais”. A Usina Hidrelétrica do Manso (UHE-Manso), administrada por Furnas, construída na cabeceira do Rio Cuiabá, é apontada por ele como um dos vetores da seca na bacia.

 “Aqui falta tudo”

  Waldileno, que é um dos coordenadores da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira, é de uma família de ribeirinhos da comunidade Piuva, uma das mais próximas à zona urbana da Barão de Melgaço. Na comunidade, um dos mais antigos moradores é o seu tio-avô, Ciro da Silva Taques, de 85 anos. Sentado à beira do rio, debaixo da sombra de uma árvore na manhã quente do dia 18 de setembro, que prometia chegar a 42 graus, o senhor diz que o calor está demais. “Parece que o sol até baixou”. Mas as mudanças no local, diz ele, não dizem respeito somente à temperatura.

 “Antes era bom demais, as coisas eram calmas. De uns 15 anos para cá diferenciou tudo. O movimento de peixe acabou. Antes a gente chacoalhava tripa [na água] e mexia a canoa de tanto lambari. Quando chovia, a água vinha, agora não tem jeito. Ave Maria, a água subia até lá em cima onde está a casa. Onde é essa barranqueira passava canoa e nós ia lá pra cima do morro fazer casa, passava três, quatro meses. Agora é tudo firme”.

 Seu Ciro aponta para o entorno da casa, sorri e diz que o espaço já foi repleto de plantações, como batata, abóbora e cana. “Hoje não tem um pau de cana. Dá pra plantar, mas não sai. Agora só na venda e caro demais, deus me livre. Acho que é por causa do combustível. Até gado tá morrendo de fome”.

 Nas margens do rio, é possível ver o rastro do fogo. Com a vegetação queimada, a tonalidade predominante nos morros é o marrom. Em Barão de Melgaço, uma perícia realizada pela Polícia Federal do MT identificou a origem de um dos focos de incêndio em uma fazenda de criação de gado. A partir da queima de vegetação desmatada para criação de área de pasto, o fogo se alastrou. Estudo realizado pelo MP-MT e MP-MS identificou que, dos 286 pontos de ignição, 152 ocorreram em propriedades privadas.

 “Pra que tacar fogo dessa maneira? A pessoa tem que ter consciência, ajudar o Pantanal, que é um lugar tão bonito, tão gostoso de se viver, de passear. Mas, hoje em dia, não dá gosto de ver tudo isso acabar”, lamenta Ivanildes Conceição Xavier de Oliveira, também moradora da Piuva. “Agora o que a gente precisa é ajuda. Ajuda do prefeito, ajuda de vereador. A gente não tem sequer uma visita. Isso vem deixando a gente até desanimada. Antigamente a gente plantava, colhia e hoje em dia não dá, principalmente com a secura e com o fogo. Aqui falta tudo”, conta.

 Além das consequências da seca e do fogo, na região de Barão de Melgaço há outra situação extrema de danos ambientais, que atualmente conta com intervenção do Poder Judiciário. Durante 10 anos, entre 1943 e 1953, Barão de Melgaço tinha o nome de Chacororé, devido à baía de mesmo nome. Além da Baía de Chacororé, na região também está localizada a Baía Sinhá Mariana, que é alimentada por Chacororé. Ambas estão degradadas e com níveis de água baixos. Da comunidade tradicional do Acorizal, Edinalda Pereira do Nascimento, 31 anos, relata como vem presenciando a situação.

  “Nossas comunidades são guardiãs do Pantanal”

 “Nesses anos presenciei muitas mudanças no Pantanal, a maioria mudanças tristes. Quando éramos crianças sabíamos a época certa que a baía iria encher para nos banharmos. Era a alegrias das crianças, jovens e até adultos. Eu tinha uma vida difícil, porém feliz. Meus avós e tios plantavam muitas coisas, como arroz mandioca, milho, maxixe, melancia, cana, criavam galinha, algumas cabeças de gado e pescavam. Com o passar dos anos, vimos as coisas ficarem mais difíceis, com a construção da Usina do Manso nunca mais a baía encheu até a casa da minha vó, e chegou no ponto de no ano de 2020 secar totalmente, coisa nunca vista por nenhuma das três gerações – meus avôs, meus pais e eu”, relata.

 Edinalda, que hoje mora em Várzea Grande e integra a Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira, diz que pela situação muito jovens têm ido para a capital buscar uma vida melhor, mas ela relata preocupação em manter viva a cultura das comunidades. Ela também aponta que com o chamado desenvolvimento veio ainda mais impacto. “A chegada do asfalto na BR, infelizmente mal planejado, impediu a circulação das águas até as baías da região. Hoje quase 100% de todas as baías estão secando ou estão secas. Isso já interferiu na pescaria das famílias, na plantação e no abastecimento de água da comunidade”.

 Para Edinalda, cujo sonho é se formar e ajudar as comunidades, é preciso políticas públicas que as fortaleçam, para que jovens não precisem ir embora. “Nossas comunidades são guardiãs do Pantanal. Preservamos esse bioma, mas sozinhos não conseguimos, e a ganância do homem atrapalha ainda mais”, afirma.

 O dano ambiental nas baías motivou outra Ação Civil Pública impetrada pelo MPMT. Nela, o órgão aponta sete motivos para a situação das baías. Dentre eles, a pavimentação da rodovia MT-040, que obstruiu o fluxo de água, as pastagens intensivas na região, o desmatamento e a dinâmica de operação da hidrelétrica do Manso.

 Na ação, o MPE-MT cobra ações do Poder Executivo estadual para resolver a seca das baías. O processo está em andamento, e recentemente o juiz responsável concedeu liminar interrompendo o licenciamento de seis novas hidrelétricas no Rio Cuiabá, as quais se somariam à UHE-Manso, que opera desde o ano de 1999 nos municípios de Chapada dos Guimarães e Nova Brasilândia. Os impactos, conforme argumenta o Poder Judiciário, se espraiam regionalmente, incidindo, por exemplo, no baixo nível de água das baías.

 A UHE-Manso, construída por Furnas, empresa brasileira de economia mista subsidiária da Eletrobras, e por consórcio das empresas privadas Odebrecht, Servix e Pesa, foi instalada tendo como um dos argumentos o controle das cheias no Cuiabá. Cerca de 700 famílias ribeirinhas foram desalojadas para a alocação do empreendimento. Os impactos são sociais, econômicos e ambientais, e não ocorrem apenas localmente. Conforme aponta estudo dos professores de Geografia e de Engenharia Civil da UFMT, Peter Zeilhofer e Rubem Mauro de Moura, a usina alterou o regime hídrico do rio, modificando também a qualidade e a vazão da água. Houve redução da vazão líquida entre 10 a 24% no Rio Cuiabá, no início da época de chuva. A vazão mínima para assegurar o início da inundação da planície onde estão as baías é uma das recomendações indicadas na pesquisa, mas não resolve demais impactos associados ao empreendimento.

 Em audiência pública acerca da situação das baías, ocorrida em março de 2021, o professor do departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMT, Ibraim Fantin da Cruz, apontou outro problema decorrente da hidrelétrica. Devido à barragem do Manso, disse, cerca de 70% dos nutrientes que chegariam ao Pantanal já não descem mais. Segundo o professor, o impacto é irreversível e, caso sejam instaladas novas hidrelétricas no rio, pode-se chegar a 90% de sedimentos bloqueados.

 A degradação das baías é mais uma situação que traz consequências para as comunidades locais. Além dos impactos no que se refere ao abastecimento de água e da possibilidade da pesca, há perdas culturais. A baía de Chacororé é considerada sagrada, e de aproximadamente 40 comunidades tradicionais de Barão de Melgaço, 10 são influenciadas diretamente por sua água.

 “Invariavelmente, os pescadores estão passando pelo risco de serem extintos”

 A expulsão das comunidades tradicionais, bem como a tentativa de criminalização e não reconhecimento delas, conforme o professor de História da Unemat e arqueólogo, Luciano Pereira da Silva, é um processo que vem desde a colonização da região. Além do extermínio direto, desde então ocorre um processo de tentativa de desterritorialização e de alijamento de direitos das comunidades, afirma o docente, que realiza pesquisas junto a estes grupos, especialmente pescadores.

 O historiador aponta que, no século XVI, quando os primeiros europeus subiram o Rio Paraguai, tiveram início os conflitos bélicos e as infectações por doenças trazidas pelos brancos. No século XVII, os bandeirantes também foram responsáveis pelo extermínio de um grande contingente de povos indígenas. Um dos casos emblemáticos, lembra Luciano, foi narrado pelo francês Hercule Florence. O naturalista descreveu a matança de 500 indígenas da etnia Bororó e a captura de mulheres e crianças, encomendada pelo tenente-coronel Major Pereira Leite, proprietário da Fazenda Jacobina, na região de Cáceres.

 Mais adiante, episódios como a Guerra do Paraguai (1864-1870) levaram indígenas às frentes de batalha ou a se deslocarem para o interior do Pantanal. Outro processo de expulsão, ocorrida com ribeirinhos, deu-se em 1975, quando houve uma grande enchente. “Nas pesquisas que realizamos em Cáceres, muitos deles falam que moravam no rio, foram retirados e não conseguiram mais voltar porque o local onde moravam foi transformado em fazendas”, aponta Luciano. Já na década de 1980, com a instalação das Unidades de Conservação, mais pessoas foram retiradas da beira do rio.

  “Existia uma população, que morava às margens do rio Paraguai e ao longo do tempo foi sendo removida de forma forçada”, diz Luciano, que também elenca uma série de tentativas recentes que convergem com esse projeto. Os pescadores da região de Porto de Morrinhos, por exemplo, foram ameaçados com uma operação do MPF e MPE que visava retirar ranchos das margens do rio. Existiam tanto estruturas de pessoas de alta renda, que as utilizam para lazer, como os barracos dos pescadores artesanais. “Quando essa questão chegou para os órgãos de repressão, não houve distinção e eles iam acabar por retirar tudo de forma indistinta”, aponta o professor.

 A partir de um trabalho de mobilização e de pesquisa para reconhecimento dos barracos, palafitas e taboados como objetos que condicionam a reprodução de saberes e práticas tradicionais, houve a regulamentação do seu uso, publicada em Diário Oficial de 29 de dezembro de 2018. O reconhecimento vale para todo o estado do MT, e Luciano aponta ter sido seu trabalho mais relevante do ponto de vista de reconhecimento dos direitos de comunidades tradicionais, com impacto direto em suas vidas.

 Outro projeto que ameaçou os pescadores partiu do governo estadual, com a tentativa de implantar a chamada Cota Zero. O projeto, apresentado em 2020, visava a proibição, por cinco anos, do transporte e abate de pescado no estado. Somente a modalidade do “pesque e solte”, a qual causa danos e estresse aos peixes, seria permitia. O projeto foi retirado após mobilização.

 Além disso, o presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, deputado Max Russi (PSB), propôs a criação de um sítio pesqueiro no rio Manso. O projeto, aprovado pela ALMT e sancionado pelo governador, proíbe a pesca profissional e difusa, e permite apenas a pesca turística – o “pesque e solte” – e de subsistência local, mediante cadastro de ribeirinhos em órgão competente. Pelo menos 200 famílias que têm na pesca o principal meio de subsistência na região serão diretamente impactadas. Além disso, com a proibição da pesca difusa, aquela que é praticada eventualmente, geralmente para obter a proteína do almoço ou da janta, a lei afetará também a segurança alimentar de outras famílias.

 Para Luciano, essa é uma forma de implantar de forma fragmentada o Cota Zero. “Invariavelmente os pescadores estão passando pelo risco de serem extintos. Se corta o trabalho deles, vão ter que se virar com outra coisa, não vão ser mais pescadores”, afirma. O historiador avalia que o estado do MT está devendo muito em relação à cultura das populações locais, constituídas de 41 povos indígenas, 75 comunidades quilombolas e 13 colônias de pescadores.

 “Nós vamos fazer a resistência para continuar”

 “É como se as comunidades não existissem”, define a integrante da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira, Claudia Sala de Pinho, ao comentar a pressão sofrida pelas populações decorrente da instalação dos empreendimentos que afetam o território. “A gente vê tudo isso como uma forma de pressão para o esvaziamento populacional do Pantanal”, sintetiza.

 Na articulação da Rede, Claudia e os demais coordenadores – Pedro Ponce, Leonida Souza e Waldileno Xavier – trabalham em ações de conscientização dos direitos das comunidades e levantamentos sobre suas condições, além de articularem junto aos grupos ações emergenciais, como campanhas de arrecadação de alimentos. “Nosso posicionamento sempre foi e sempre será em defesa da vida das comunidades tradicionais, para que nenhuma comunidade seja obrigada a sair do seu lugar, seja obrigada a ver seu território devastado por qualquer uma dessas ações que não levam em conta que existe comunidades tradicionais no Pantanal, que existe gente. A gente precisa ver o Pantanal com as pessoas que sempre habitaram o Pantanal. Essa é a realidade”, indica.

 Claudia presidiu o Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais de 2018 até agosto de 2021, conselho que chegou a ser extinto por decreto do presidente Jair Bolsonaro. Ela explica que está em curso um projeto de esvaziamento populacional das comunidades pantaneiras, as quais são a “última barreira na defesa da vida e na defesa da biodiversidade do Pantanal”.

 As sucessivas tentativas de marginalização não impedem, no entanto, que comunidades tradicionais sejam aquelas que recorrentemente denunciam crimes ambientais. Foram pescadores, por exemplo, que denunciaram por mais de uma vez a mortandade de peixes nas proximidades de hidrelétrica em Sinop, no norte do estado, causada pela operação do empreendimento. Em janeiro de 2021, o povo Chiquitano apontou crimes ambientais no Rio Tarumã, em Porto Esperidião. Em março de 2021, quilombolas da comunidade Jejum, em Poconé, denunciaram a contaminação por agrotóxicos e o desrespeito das fazendas vizinhas à distância mínima de 90 metros para pulverização do veneno. Em junho, ribeirinhos registraram a matança de jacarés nas proximidades do Porto Jofre.

 São inúmeros exemplos de um grande conjunto de denúncias em relação aos crimes, que também são vetores de pressão às comunidades tradicionais, cuja conexão com o meio ambiente é indispensável para sua reprodução econômica, social, religiosa, transcendental e cultural, conforme indica o Decreto nº 6.040/2007, que reconhece os Povos e Comunidades tradicionais brasileiros.

 Algumas das ameaças, no entanto, são paradoxalmente amparadas pelo Estado, seja pela vinculação a grupos do agronegócio, da mineração, do ramo logístico e hidrelétrico, seja por omissão e negligência aos direitos destas populações. Na disputa por projetos para a região, há, por um lado, atores que tentam posicionar a região como rota estratégica dentro do mercado de commodities, em sinergia com o governo federal e estadual. Neste, os Poderes Executivos frequentemente são chefiados por representantes destes setores.

 De outro lado, comunidades, pesquisadores e atores do judiciário evidenciam a destruição do bioma e a vulnerabilização das comunidades dentro desse modelo. E buscam articulação para resistir pautando um projeto de desenvolvimento compatível com a preservação do bioma, o que beneficia não só as comunidades pantaneiras, mas a população como um todo. O Pantanal, considerado Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), é a maior planície alagada do mundo e já perdeu 75% da sua água desde 1985, segundo o MapBiomas. As condições de intensificação de eventos extremos, associadas às mudanças climáticas e a projetos predatórios de desenvolvimento, lançam as comunidades e redes de parceiros em uma corrida contra o tempo.

 É uma disputa desigual, mas conforme Claudia, é uma disputa da qual não se pode abrir mão. “Nós acreditamos que nossos antepassados constituem as águas desse Pantanal, constituem as árvores, o ar, as pedras. Tudo que existe no Pantanal continua sendo a presença dos nossos ancestrais na região. E nós vamos fazer a resistência para continuar. A nossa forma hoje de resistir é dizer: eu existo, eu estou aqui no mapa”. (Fonte: A reportagem é de Liana Coll, publicada por Le Monde Diplomatique Brasil, 29-11-2021)

*  Liana Coll é jornalista na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutoranda em Ciência Política na mesma universidade. Desenvolve também reportagens independentes, como o trabalho realizado no Pantanal, que contou com apoio da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira. Autora do livro Elite econômica e política: a filantropia empresarial como forma de constituir um governo dentro do governo, publicado pela editora Telha em 2021.

 

 O Modo de Fazer Viola de Cocho (MT e MS) e a Cachoeira do Iauaretê - Lugar Sagrado dos Povos Indígenas dos Rios Uaupés e Papuri (AM) - tiveram revalidados seus títulos de Patrimônio Cultural do Brasil. As decisões foram aprovadas, por unanimidade, na durante a 99ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada no último dia 9.

Os bens culturais registrados devem passar, pelo menos a cada dez anos, por processos de revalidação dos títulos de Patrimônio Cultural. “O objetivo é atualizar informações sobre o bem cultural, avaliar a efetividade das ações de apoio e fomento, e conhecer mudanças nos sentidos e significados atribuídos ao bem, entre outras questões que contribuem para a continuidade da salvaguarda desses patrimônios’, destaca nota do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O conselho consultivo é composto por representantes de instituições públicas e privadas,  por representantes da sociedade civil e presidido pelo Iphan. Ele examina, aprecia e decide sobre questões relacionadas a tombamentos e registros de bens culturais de natureza imaterial.

Segundo o instituto, no último mês foram realizadas reuniões junto a pesquisadores e comunidades detentoras dos dois bens para formatação de um parecer técnico de revalidação. Esse documento foi colocado em consulta pública e, encerrado o prazo, o parecer e as manifestações da população foram apreciadas pela Câmara Setorial do Patrimônio Imaterial, que recomendou pela revalidação dos títulos. O último passo foi a votação pelas revalidações no Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural.

Viola de Cocho

O Modo de Fazer Viola de Cocho, tradicional nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, é registrado como Patrimônio Cultural do Brasil desde dezembro de 2004. O bem cultural envolve a  produção artesanal do instrumento musical, que é esculpido em uma tora de madeira inteiriça e resultado dos saberes que orientam o manejo das matérias-primas típicas da região Centro-Oeste como o sarã-de-leite, ximbuva e o cedro. 

As comunidades detentoras desses conhecimentos são compostas pelos mestres artesãos que produzem a viola - um elemento fundamental nas rodas de cururu e siriri da região pantaneira.

Cachoeira Iauaretê

A Cachoeira de Iarauetê, também conhecida como Cachoeira da Onça, está localizada na região do Alto do Rio Negro, no município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, e está  registrada como Patrimônio Cultural do Brasil desde fevereiro de 2006, sob o título de Lugar Sagrado dos Povos Indígenas dos Rios Uaupés e Papuri.

O lugar é referência para povos indígenas da região banhada pelos dois rios, a maioria de filiação linguística Tukano Oriental, Aruak e Maku. A cachoeira reúne pedras, lajes, ilhas e paranás que simbolizam episódios de guerras, morte e aliança em mitos de origem e narrativas históricas desses povos, como a criação da humanidade e o surgimento de suas respectivas etnias.

 

Terça, 23 Novembro 2021 05:00

“Mulheres pela Água”

Obra foi escrita por 50 mulheres que trabalham com gestão de recursos hídricos no Brasil. Livro tem participação de personalidades mato-grossenses.

Lançado no último dia 22, o livro "Mulheres pela Água" evidencia o papel da mulher nos processos de gestão da água do Brasil. Duas personalidades de Mato Grosso contam suas experiências na publicação, a secretária adjunta de Licenciamento Ambiental e Recursos Hídricos da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Lilian Ferreira dos Santos, e a servidora aposentada da Sema, Leonice de Souza Lotufo. 

Ao todo, 50 autoras compartilham na publicação, através de artigos e depoimentos, a inserção propositiva delas dentro do Sistema de Recursos Hídricos, destacando a atuação feminina nos processos, programas e ações desenvolvidos nos locais onde trabalham, ou mesmo dentro de suas vidas públicas, ou em empresas privadas e organizações sociais.

Lilian Ferreira dos Santos é secretária adjunta da Sema-MT, engenheira agrônoma formada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Especialista em Gestão e Manejo Ambiental em Sistema Agrícolas (UFLA). Ela conta em seu artigo que em seus 23 anos de serviço público buscou a preservação do meio ambiente, e as melhores estratégias, os melhores projetos, as melhores ações para cuidar da natureza.

"Ao longo desses anos aprendi muito, tive centenas de experiências em Mato Grosso, mas também em várias regiões do Brasil e até em algumas cidades do mundo, como por exemplo, no Fórum Mundial da Água ocorrido em Marselha, França, no ano de 2012, onde pude ver a paixão brilhar nos olhos de milhares de pessoas que se juntam para lutar pela importância de cada gota de água", conta em seu relato. 

A partir deste encontro mundial, do qual participou junto com Leonice de Souza Lotufo, foi possível que juntas, conseguissem realizar em solo mato-grossense, o Encontro Nacional de Comitês de Bacias Hidrográficas, com diversos representantes de organismos internacionais. 

Leonice Lotufo é servidora pública aposentada, geóloga, e guia de turismo. É também diretora Região Centro-Oeste da Rede Brasil de Organismos de Bacias Hidrográficas (REBOB), membro do Comitê de Bacias Hidrográficas de Cuiabá, e do Conselho Estadual de Recursos Hidricos (CEHIDRO) pela ITEEC Brasil. 

"Faço o relato da minha história, desde o meu nascimento até quando comecei a amar o meio ambiente, e também como trabalhei para trazer o morador da bacia hidrográfica para pensar junto com a gente o que é a gestão de recursos hídricos, e como cuidar de um recurso que pertence a todos nós, a água".

Sua história de mais de 20 anos atuando na área se cruza com a criação e consolidação dos Comitês de Recursos Hídricos. Acaba de ser eleita como segunda coordenadora adjunta do fórum nacional de CBH, com mandato de dois anos. 

O livro

O prefácio foi escrito pela secretária de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, Marília Carvalho de Melo, que é a primeira mulher a comandar a pasta responsável por conduzir a gestão ambiental mineira.

O Livro foi organizado e editado pela Rede Brasil de Organismos de Bacias Hidrográficas em parceria com a Fundação Agência das Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, AGEVAP Associação Pró-Gestão das Águas do Rio Paraíba do Sul e a FABHAT Fundação Agência da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê.

A edição surgiu como resultado do 8º Fórum Mundial da Água, realizado na cidade de Brasília, Distrito Federal, em março de 2018. Na ocasião, foi evidente a participação das mulheres nos debates.

 

O Instituto Virada Feminina de Mato Grosso realiza o ‘2º Seminário da Virada Feminina de Mato Grosso’ para debater o empoderamento feminino, o fortalecimento e a conexão de iniciativas. Na ocasião, será lançada oficialmente a campanha nacional “Pelo Fim da Violência contra Mulher”.

O Instituto Virada Feminina de Mato Grosso realiza amanhã, 17 de novembro, das 8 às 18 horas, o 2º Seminário da Virada Feminina de Mato Grosso. O evento será no Teatro Zulmira Canavarros (Assembleia Legislativa de Mato Grosso) ia 17.11.2021, do Seminário que será realizado pela Virada Feminina de MT. O tema principal é a Equidade nos espaços Institucionais e de Poder. O evento é gratuito e sem fins lucrativos.  O instituto reúne lideranças femininas de diversos segmentos da sociedade.

Conforme a  presidente estadual da Virada Feminina de Mato Grosso, Cely Almeida, estão confirmadas as presenças de importantes personalidades como a modelo Luiza Brunet - embaixadora da Virada Feminina Nacional, a dra. Maria Esther Martinez Quintero - da Universidade de Salamanca/Espanha, a dra. Amini Haddad - juíza de Direito do Estado de Mato Grosso e coordenadora Nacional da Virada Feminina, Marta Suplicy- presidente da Virada Feminina Nacional e demais autoridades das cidades de SP, RJ, DF e Mato Grosso. 

“Sei que juntas somos mais fortes e podemos mudar o amanhã”, disse Cely. 

O Virada Feminina é um movimento mundial. É um movimento apartidário, global, com objetivo no painel da Agenda 2030 da ONU, ou seja, nítido compromisso com o desenvolvimento humano e social, de mulheres e homens. “É um movimento global, comprometido com a participação feminina no cenário das políticas de Estado, das políticas públicas e para incentivar a representatividade feminina em todos os setores sociais. As mulheres podem contribuir e muito para o desenvolvimento nacional. Elas precisam se ver nesses ambientes. Essa ausência prejudica o plano simbólico do feminino, para fins de incentivo a todas que almejam esses espaços. É como se passasse a informação de que não temos legitimidade nesses ambientes públicos”, frisou Cely.

Ainda segundo Cely, o debate irá destacar a importância da mulher em espaços públicos, empresas, instituições. “Mostrar que nós precisamos ser respeitadas”.

Mato Grosso foi escolhido para ser o palco do lançamento oficial da campanha nacional “ Pelo Fim da Violência contra Mulher”. “Nosso Estado é um dos que apresentam o maior índice de feminicídio do país. Em busca de combater isso eu pretendo ir a todos os municípios mato-grossenses para realizar rodas de conversas e apoio para as mulheres”, conclui Cely.

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