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Artigo científico que foi elaborado por pesquisadores do Instituto é resultado de projeto de um edital publicado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Mato Grosso.

Uma solução tecnológica de “Arquitetura baseada em microsserviços” elaborada especialmente para a Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT) ganhará repercussão internacional. Um artigo científico com o tema do projeto, desenvolvido pelo Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), será apresentado na 3ª Conferência Internacional em Eletricidade, Comunicação e Engenharia da Computação (ICECCE) 2021, neste sábado (12.06).

O projeto é fruto de um edital da Fundação de Amparo à Pesquisa de Mato Grosso (Fapemat), demandado pela Sesp-MT. Assinam o artigo científico os pesquisadores do IFMT, João Paulo Delgado Preti, Adriano Neres Araújo Souza, Evandro César Freiberger e Tiago de Almeida Lacerda. A conferência será realizada de forma virtual, com acesso restrito aos participantes inscritos, às 6h15 no horário local. O evento seria feito de forma presencial, na Malásia, centro financeiro de referência no Sudoeste Asiático na área de tecnologia.

A conferência conta com participantes de países como Estados Unidos, China e Índia, que são considerados os maiores players da tecnologia. Foram submetidos 376 artigos, sendo que apenas sete foram aprovados em Engenharia de Software, dentre os quais está o do IFMT. O texto científico passou pelo crivo de uma comissão internacional, que entendeu a relevância e possibilidade de contribuição científica do projeto.

A apresentação no evento, inclusive, abre possibilidade de que a pesquisa seja implementada em outros países. Além disso, os artigos apresentados no evento serão publicados na biblioteca digital da IEEE, reconhecida como a maior organização internacional sem fins lucrativos, formada por profissionais de diversas áreas voltadas a tecnologia, como por exemplo, telecomunicações, computação, tecnologias robóticas, veiculares, aeroespaciais, biomédicas, entre outros.

O projeto foi desenvolvido de acordo com as necessidades apontadas pela Sesp-MT em migrar da atual organização monolítica para a arquitetura de microsserviços. Na prática, a nova estrutura permitirá que as aplicações sejam entregues de forma mais rápida, e facilitará a integração com outros órgãos do Estado e entidades, com a possibilidade de centenas de aplicações colaborarem entre si. Para o cidadão, isso reflete em diversos serviços que poderão ser acessados em uma única ferramenta.

A coordenadora de Soluções Tecnológicas da Sesp-MT, Diana Lima, ressalta a importância do trabalho desenvolvido pelos pesquisadores, em parceria com a Superintendência de Tecnologia da Informação da Secretaria. “A ideia surgiu em agosto de 2019, quando nossa equipe esteve no Ceará, para conhecer o modelo da Secretaria de Segurança. Conhecemos vários produtos de lá, e no projeto de BigData foi abordada a arquitetura em microsserviços. A partir daí, começamos a pensar o que poderíamos desenvolver, levando em conta a realidade do nosso estado”.

A proposta foi impulsionada pelo secretário de Estado de Segurança, Alexandre Bustamante, bem como o governador Mauro Mendes. O Escritório Diretivo de Projetos Especiais (EDPE) da Sesp-MT mediou o contato com a Fapemat. “Buscamos recursos que estejam disponíveis para as instituições de segurança pública, temos que nos enquadrar nas exigências, e esse é o papel do Escritório. A parceria com a Fapemat tem sido muito profícua e, no nosso caso, vão ser entregues a pesquisa e o produto também”, destaca o assessor especial do EDPE, coronel BM RR Marcos Hübner.

Por meio da realização de um edital, para o qual o IFMT concorreu e foi selecionado, a Fundação fomentou recursos para aquisição de equipamentos, bolsas de estudo e servidores necessários. “O programa de pesquisa aplicada em políticas públicas da Fapemat permite que as secretarias e outros órgãos do governo definam um problema específico e, em parcerias com as universidades, soluções tecnológicas adequadas sejam encontradas, trazendo melhor eficiência e qualidade no serviço público. O projeto de microsserviços é um exemplo exitoso deste programa”, avalia o presidente da Fapemat, Marcos de Sá.

Segurança das informações

O pesquisador do IFMT, João Paulo Delgado Preti, explica que a estrutura monolítica possui uma grande aplicação com diversas responsabilidades, concentra muitos serviços, mas em um mesmo lugar. “Do ponto de vista de segurança, é como se você facilitasse o trabalho de quem ataca, porque tem acesso a uma grande base de dados. Quando tem a estrutura em microsserviços, as aplicações estão distribuídas, o que dispersa a atenção”.

Dessa forma, é possível restringir a atuação em caso de invasão. A pessoa só conseguirá ter acesso a uma pequena parte, e não um grande conjunto de operações. O pesquisador frisa ainda que o projeto está em fase de conclusão e que a mudança será feita de forma gradual. O edital teve início em agosto de 2020 e vence em julho de 2021. Estão sendo providenciadas documentação e transferência de dados, além de treinamentos. Até o momento, a equipe da Sesp-MT já participou de seis workshops e ainda estão previstos mais dois.

A Sesp-MT está em fase de publicação de um novo edital na área de Tecnologia de Informação, em parceria com a Fapemat. Desta vez, o foco é o DevOps (Development Operations), que em suma é uma cultura na engenharia de software que aproxima os desenvolvedores de software (Dev) e os operadores do software/ administradores do sistema (Ops). No caso da Secretaria, será uma estrutura de base para viabilizar o uso da arquitetura de microsserviços.

A Fapemat viabilizou ainda editais de projetos para as unidades desconcentradas da Sesp-MT. Foram selecionados um para cada força: Polícia Judiciária Civil (PJC-MT), Polícia Militar (PM-MT), Corpo de Bombeiros Militar (CBM-MT) e Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec). Ao todo, as seis propostas totalizaram recursos de R$ 3 milhões.

 

Sexta, 28 Mai 2021 11:28

“Vivemos era de ouro na astronomia”

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Astrofísica brasileira na China lista avanços na conquista do espaço neste ano.

 Se há uma década afirmassem que, em 2021, teríamos, ao mesmo tempo, três países diferentes com missões espaciais de alta tecnologia para investigação e com comunicação em Marte (sendo dois países com robôs em solo), talvez fosse difícil de acreditar. Isso porque em 2011, após várias missões ao planeta vermelho, ainda estávamos prestes a lançar a sonda Curiosity pela Agência Espacial Americana (Nasa). Até então, era a tecnologia mais inovadora para exploração do planeta, que só chegou a pousar em Marte em agosto de 2012. Foi em 2011 também que a Nasa divulgou as primeiras imagens que sugeriam que já existiu água no passado do planeta, a partir do que pareciam rastros da substância em um terreno rochoso.

Uma década depois, assistimos, em tempo real, à atuação de Estados Unidos, China e Emirados Árabes Unidos em missões simultâneas no planeta vizinho. Enquanto Estados Unidos e China se debruçam sobre a investigação de um passado vivo de Marte, a partir de vestígios deixados pela água, os Emirados Árabes concentram seus esforços na pesquisa sobre a atmosfera do planeta.

Além destes três países, até hoje apenas a Índia, a antiga União Soviética e a Agência Espacial Europeia enviaram missões ao planeta. O momento atual é considerado uma ''era de ouro dos experimentos astronômicos'', define Larissa Santos, pesquisadora e professora no Centro de Gravitação e Cosmologia na Universidade de Yangzhou, na China.

A astrofísica e cosmóloga brasiliense foi selecionada, há seis anos, para atuar na Universidade de Ciência e Tecnologia da China, após se formar em física pela Universidade de Brasília (UnB) e passar por especializações no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São Paulo, e na Universidade de Roma, na Itália.

Ela destaca que, neste momento da conquista espacial, em que Estados Unidos, China e Emirados Árabes estão ao mesmo tempo explorando Marte, há chance de encontrarmos respostas para questões antigas. “O Perseverance da Nasa é o primeiro robô que realmente procura por evidências de vida microbiana no passado de Marte, devido ao local onde ele pousou (a cratera Jezero), onde vemos a presença de minerais que só podem ser formados na presença de água”, diz.

Além do Perseverance, que pousou em Marte em 18 de fevereiro, Larissa ressalta a bem-sucedida missão chinesa, a Tianwen-1, que entrou em órbita em fevereiro e pousou, com sucesso, o rover Zhurong, em 14 de maio. A China é o segundo a pousar um robô, com sucesso, em Marte. ''E claro que a gente não pode deixar de falar da missão histórica dos Emirados Árabes Unidos'', diz a brasileira, sobre a chegada ao planeta, em 9 de fevereiro, da sonda Hope, para investigar as condições atmosféricas marcianas.

Marte é uma das apostas para vestígios de vida

Ainda nesta década, a cosmóloga adianta mais expectativa em torno de uma missão em parceria da Nasa com a Agência Espacial Europeia para buscar as coletas feitas pelo Perseverance. ''Se encontrássemos vida fora da Terra, seria a descoberta mais importante para a ciência, na minha opinião. Por ter tido água no passado, Marte é uma das maiores apostas de onde achar vestígios de vida. Estamos exatamente buscando estas evidências com os robôs que estão na superfície'', explica.

Ainda sobre a ascensão das pesquisas em 2021, Larissa ressalta outro marco da ciência mundial, com o lançamento do telescópio James Webb, previsto para outubro deste ano. O equipamento deve captar imagens das estruturas mais antigas do universo.

Outro projeto, do qual ela faz parte, é o do telescópio Ali, em construção pela China no Himalaia. O Ali também quer investigar o universo primitivo, pesquisando a chamada de radiação cósmica de fundo. ''Estes dados podem nos revelar informações sobre os instantes iniciais do universo'', diz.

E esta não é a única frente de trabalho de Larissa no que diz respeito ao estudo dos segredos do universo. Ela faz parte de uma iniciativa que envolve um dos maiores mistérios da cosmologia moderna: a energia escura, que corresponde a 70% do universo. Ela é objeto de pesquisa do Bingo (da sigla em inglês para Baryon Acoustic Oscilations in Neutral Gas Observations), uma espécie de observatório que tem parceria do Brasil, Reino Unido, Suíça, Uruguai, França, África do Sul e China, país que a pesquisadora representa.

''O que a gente espera é poder revelar um pouco mais sobre a energia escura. A gente não sabe o que ela é, somente o que ela provoca: uma expansão acelerada do Universo. Ou seja, as galáxias estariam se afastando cada vez mais rápido umas das outras, e isso nos encaminha para uma morte tragicamente fria'', diz.

Nos últimos tempos, a brasileira dedica-se também à divulgação científica nas redes sociais, onde repercute as principais pautas astronômicas. Segundo ela, o desafio desta jornada é adequar ''assuntos mais complexos em uma roupagem mais popular, mas sem simplificar demais''. Larissa é autora do livro Universo Escuro, finalista do Prêmio Jabuti 2017, e que pode ser baixado, de graça, na página pessoal da pesquisadora na internet.

 

Quarta, 05 Mai 2021 05:00

"Do Prado ao Prato"

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Aprovado primeiro produto derivado de insetos para consumo humano. É a farinha produzida a partir de um besouro. Os "Novos Alimentos" são inovadores ou produzidos utilizando novas tecnologias e processos de transformação.

 A farinha produzida a partir de larvas de um escaravelho (besouro) foi aprovada para consumo humano pelos Estados-membros da União Europeia (UE), segundo recomendação da Comissão Europeia.

A farinha de Tenebrio (larva de farinha), um novo alimento, também conhecida como "farinha amarela" é a primeira autorização de comercialização na UE de produtos derivados de insetos, depois de a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos ter dado luz verde para o consumo.

A estratégia "Do Prado ao Prato" identifica os insetos como fonte alternativa de proteínas que pode apoiar a transição da UE para um sistema alimentar mais sustentável.

Os chamados "Novos Alimentos" são definidos como os que não tinham sido consumidos em grau significativo por pessoas na UE antes de 15 de maio de 1997, quando entrou em vigor o primeiro regulamento sobre a questão.

Os "Novos Alimentos" são inovadores ou produzidos utilizando novas tecnologias e processos de transformação, bem como produtos que são ou têm sido tradicionalmente consumidos fora da UE.

Exemplos de "Novos Alimentos" incluem novas fontes de vitamina K (menaquinona) ou extratos de alimentos existentes (óleo de Krill do Antártico rico em fosfolípidos de Euphausia superba), produtos agrícolas de outros países (sementes de chia, sumo de noni), ou alimentos derivados de novos processos de produção, como tratamento por ultravioletas. (Fonte: Reuters)

 

Para o reconhecido historiador e filósofo israelense Yuval Noah Harari- autor dos best-sellers Sapiens, Homo Deus e 21 lições para o século XXI -, a pandemia foi uma prova para os sistemas políticos e na qual “muitas nações reprovaram”.

Diferente de outras crises sanitárias, como a gripe de 1918, isto “pode fazer da covid-19 uma pandemia muito mais transformadora que as pandemias anteriores. Provavelmente, terá um impacto político e cultural muito maior”, comenta nesta entrevista por escrito, na qual também aborda os riscos e vantagens da vigilância digital e as lições para o mundo pós-pandemia.

A entrevista é de Carolina Álvarez Peñafiel, publicada originalmente pelo jornal chileno El Mercurio e reproduzida pelo jornal peruano El Comercio, 12-04-2021. A tradução é do Cepat.

 Eis a entrevista.

Na perspectiva do cotidiano, a pandemia está marcando a vida das sociedades. Mas em sua perspectiva, como historiador, esta crise tem o potencial de definir nossa era?

As epidemias costumam deixar uma pegada histórica menor do que muitas pessoas assumem. É possível que daqui a um século, as pessoas dificilmente se lembrem desta pandemia ou pensem muito sobre ela, assim como as pessoas praticamente se esqueceram da pandemia da gripe de 1918. Compare o grande número de romances, filmes e pinturas famosas sobre a I Guerra Mundial com a quase total ausência de arte sobre a pandemia da gripe de 1918. A maioria das pessoas não consideraria a pandemia de 1918 tão historicamente significativa como a I Guerra, mesmo que tenha deixado mais mortes.

Por outro lado, a natureza das pandemias mudou no último século. Em 1918, os cientistas não sabiam o que estava provocando a morte de tanta gente e não tinham a capacidade para deter a pandemia. Em 2020, os cientistas foram capazes de identificar rapidamente o coronavírus, descobrir medidas eficazes para combatê-lo e desenvolver uma vacina. Consequentemente, as pandemias não são mais forças incontroláveis da natureza. Agora, são desafios contornáveis.

Isto tornou as pandemias um problema político. Temos as ferramentas científicas para deter as pandemias, mas são os políticos que decidem como usar estas ferramentas. Portanto, se uma pandemia sai do controle, não é mais vista como um desastre natural que supera o controle humano. Agora, é vista como uma falha política. E isso torna as pandemias algo muito mais interessante. Tornaram-se uma prova para os nossos sistemas políticos.

Infelizmente, a covid-19 foi uma prova na qual muitas nações reprovaram. Isto pode fazer da covid-19 uma pandemia muito mais transformadora que as pandemias anteriores. Provavelmente, terá um impacto político e cultural muito maior que a da gripe de 1918.

Você publicou as “21 lições para o século XXI” pouco antes do surgimento da pandemia. Alguns processos que você aborda no livro (nacionalismos, os questionamentos à narrativa liberal e a democracia, o uso de dados e a desinformação) foram acelerados? Descobriu novos? Qual é a sua maior preocupação?

A pandemia não mudou estes processos de longo prazo, e as ameaças que identifiquei em 21 lições... permanecem. Mais do que o próprio vírus, a principal ameaça revelada pelo covid-19 é a extrema fragilidade da ordem internacional. É o que mais me preocupa. Vemos o aumento de tensões e de hostilidade no sistema internacional, e isto tornará mais difícil prevenir outros desastres, como uma guerra nuclear e o colapso ecológico.

Nas últimas décadas, o mundo foi governado por uma ordem global que se costuma pensar como liberal. A premissa liberal básica de nossa ordem global é que todos os humanos compartilham experiências centrais, valores e interesses, e que nenhum grupo humano é inerentemente superior a qualquer outro. Ressalta a cooperação acima do conflito, e a melhor forma para impulsionar essa cooperação é facilitar o movimento de ideias, bens, dinheiro e pessoas pelo globo.

Esta ordem tem seus problemas, mas demonstrou ser superior a todas as outras alternativas. Graças à ordem liberal global, pela primeira vez na história da humanidade, a fome mata menos pessoas que a obesidade, a violência mata menos pessoas que os acidentes, e as epidemias – incluindo a de covid-19 – matam menos pessoas que a velhice. Isto é uma conquista incrível.

No entanto, políticos ao redor do mundo descuidaram deste sistema e, em alguns casos, o minaram ativamente. A ordem global é agora como uma casa na qual todos vivem, mas que ninguém repara. Se entrar em colapso, milhares de milhões de pessoas sofrerão terrivelmente.

Para lidar com os desafios do século XXI, precisamos de cooperação e liderança, e também de um plano audaz sobre como fortalecer o sistema internacional. Sempre que você ouvir um político criticar a ideia da cooperação global, pergunte-lhe: “Qual é o seu plano para prevenir futuras pandemias, evitar a guerra nuclear, deter a mudança climática e regulamentar a inteligência artificial?”.

Deveria ser óbvio para todos que nenhum país pode abordar estas ameaças sozinho. Também deveria ser óbvio para todos que estes são os maiores problemas que todos os países enfrentam, e se não resolvermos estes problemas, então, nada mais realmente importará.

 “Alguns acreditam que a crise (sanitária) demonstrou a superioridade dos sistemas autoritários, como a China. Mas, na realidade, ressaltou os problemas centrais dos regimes autoritários e as vantagens das democracias”, afirma Harari. Contudo, aponta que que há democracias que tiveram um resultado ruim, como no Brasil e nos Estados Unidos, e outras que foram bem, como em Taiwan, Nova Zelândia e Coreia do Sul. O historiador e filósofo aborda três eixos no contraponto democracias-autocracias:

“Primeiro, as democracias garantem o livre fluxo de informação, ao passo que as ditaduras prejudicam a si mesmas ao restringir a liberdade de expressão e de imprensa”, disse. Os líderes autoritários, explica, costumam punir aqueles que dão notícias ruins e podem atuar com autocensuras que acarretem uma falha de todo o sistema, porque é alimentado com dados incorretos.

 “Não é coincidência que mais de um ano após o início da pandemia, ainda não saibamos como começou. É porque começou em um país autoritário. Grande parte da informação do que aconteceu nas primeiras semanas em Wuhan permanece oculta, e não podemos confiar em toda a informação que foi colocada à disposição”, recorda. Ao contrário, comenta, em uma democracia até mesmo se alguém quer ocultar algo, pode ser publicado pela imprensa independente ou por cidadãos.

O segundo é a capacidade dos sistemas em corrigir erros inevitáveis. “Para os autoritários, geralmente é mais difícil identificar e corrigir seus próprios erros”, sustenta, e acrescenta que, muitas vezes, um líder autoritário coloca a culpa dos problemas em fatores externos e se arroga mais poder para combatê-los. “Em vez de corrigir seu erro, o sistema autoritário o amplia”, disse. Para as democracias é mais fácil identificar e admitir erros, e se um líder nega o erro, outros com poder “podem fazê-lo enxergar e sugerir uma direção de ação alternativa”.

O terceiro é a motivação das pessoas de um sistema. Nas autocracias, sem livre acesso à informação, não é possível tomar decisões próprias e é preciso aguardar instruções, o que “pode provocar a perda de muito tempo e recursos”. Mas na democracia, as pessoas podem obter informação e tomar iniciativas. “Uma população motivada e bem informada é mais eficaz do que uma população ignorante aguardando receber instruções”, expõe.

No início da pandemia, em um ensaio, você abordou sua inquietação sobre o falso dilema entre privacidade e saúde, dada a capacidade de vigilância e a disponibilidade de dados por meio de dispositivos tão comuns como um celular. Um ano depois, como você acredita que foi resolvido?

Não deveríamos ser forçados a escolher entre privacidade e saúde. Deveríamos desfrutar das duas. Sim, precisamos de mais vigilância para lutar contra as pandemias. Mas mais vigilância não necessariamente mina a democracia. Há um princípio fundamental para aumentar a vigilância sem minar a democracia: onde quer que seja que aumente a vigilância dos cidadãos, é preciso aumentar a vigilância do governo. Se o governo sabe mais sobre o que os cidadãos estão fazendo, então, os cidadãos deveriam conhecer mais sobre o que o governo está fazendo (...).

Se o governo diz que é muito complicado estabelecer este tipo de sistema de monitoramento em meio a uma crise, não acreditem. Se não é muito complicado começar a monitorar o que eu faço, não é muito complicado fazer isso com o governo. Assim como alguns países utilizaram aplicativos nos telefones para monitorar a propagação do coronavírus, deveríamos ter um aplicativo que monitore como os fundos de emergência estão sendo gastos.

Disse que os donos dos dados serão os donos do futuro e alertou sobre o perigo de uma ditadura. Faria um sinal de alerta sobre a forma como os dados estão sendo usados?

O ponto central aqui é evitar que estes dados estejam concentrados nas mãos de poucas organizações poderosas. Isso porque, pela primeira vez na história, é possível que os sistemas digitais conheçam as pessoas melhor do que elas mesmas. Para hackear seres humanos, tudo o que é necessário são dados suficientes e poder computacional. Este é o caminho para o totalitarismo digital, onde a tecnologia pode manipular as pessoas sem que elas tenham consciência disso.

Para prevenir este resultado, deveríamos garantir que estes dados não se concentrem em apenas um lugar. Isto pode parecer mais ineficiente, mas esta ineficiência é mais um atributo do que um erro. Muitos sistemas naturais têm ineficiências e redundâncias que os tornam mais resilientes. Um pouco de ineficiência na vida é bom.

As ditaduras digitais que descrevi são o pior cenário dos sistemas de vigilância que estão sendo concebidos. Mas podemos imaginar cenários melhores. A vigilância moderna poderia ser usada não para seguir os cidadãos de um país, mas para seguir o governo, para garantir que não haja corrupção. Mais do que ajudar a polícia a te conhecer melhor, os sensores biométricos poderiam ser usados para permitir que você se conheça melhor. Nossos dados poderiam ser usados para nos empoderar, mais que para nos escravizar.

Entre os confinamentos, as infecções e os hospitais lotados, ocorreu um progresso científico notável que permitiu chegar a várias vacinas contra o vírus, em tempo recorde. Em muitos casos, graças a colaborações científicas internacionais. Esta pode a melhor oportunidade desta crise?

O último ano ressaltou tanto a promessa da cooperação global, como os perigos de sua ausência. Quando se trata de pesquisa científica, foi um ano que trouxe um marco para a colaboração. Cientistas trabalhando em diferentes laboratórios ao redor do mundo rapidamente identificaram o vírus, encontraram formas de deter a propagação e criaram várias vacinas altamente eficazes.

Muitos dos principais artigos científicos sobre o coronavírus foram coescritos por pesquisadores vivendo em diferentes continentes. Estes cientistas nos deram todas as ferramentas necessárias para controlar esta pandemia.

Mas políticos irresponsáveis descuidaram dos sistemas de saúde, falharam em reagir a tempo, e atualmente falham em cooperar efetivamente em nível global. Não penso que os cientistas devam substituir os políticos, mas nossos políticos certamente podem aprender com a maneira como os cientistas trabalharam juntos este ano. Resumindo, esta crise, até agora, podemos dizer que foi um notável êxito científico e um enorme fracasso político.

Qual seria a lição número 22 para o mundo pós-pandemia?

A lição óbvia é que precisamos investir mais em nossos sistemas de saúde pública. E não só em nossos sistemas nacionais de saúde pública, mas também em organizações internacionais que possam investir precocemente para detectar doenças antes que se propaguem.

Estas organizações também deveriam ter influência política para que não sejam obstaculizadas por políticos pouco cooperadores. Construir tais instituições cooperativas não só reduzirá o risco de futuras pandemias, mas também ajudará a consertar as fraturas no sistema global que estão obstruindo nossa capacidade de resolver outros problemas globais. Espero que a covid-19 sirva com uma chamada de atenção sobre o valor da cooperação global.

 

 

Estão abertas as inscrições para quem desejar participar do Dia Mundial da Criatividade em Mato Grosso. A Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso (Seciteci), por meio do MT Ciências e do Parque Tecnológico, apoia este que é o maior festival colaborativo de criatividade do mundo.

O evento será realizado de forma virtual nos dias 21 e 22 de abril e segue com as inscrições abertas até o dia 21 de abril. Para se inscrever, o candidato pode acessar o site do evento e baixar o aplicativo e se cadastrar.

Esta é a 4ª edição do evento que trará como assuntos principais a empregabilidade e a geração de renda, contribuindo para reduzir os danos e prejuízos causados pela pandemia.

Dentre os temas abordados pelo festival estão: pensamento analítico e inovação; aprendizagem ativa e estratégias de aprendizagem; resolução de problemas complexos; pensamento crítico e análise; criatividade; liderança e influência social; uso, monitoramento e controle de tecnologia e artes, técnicas e expressão artística.

Cada cidade participante tem o seu próprio representante, chamado de líder local. Esse representante da sociedade civil defende o valor da criatividade e da educação para transformar a realidade da sua região.

Em Cuiabá, a líder local é Caroline dos Anjos Vaez, agente de Inovação do Parque Tecnológico Mato Grosso que, representará Mato Grosso no evento. Ela desde 2020, assumiu a responsabilidade de trazer o World Creativity Day  e agora, Cuiabá estará ao lado de cidades globais como Barcelona, Vancouver, Dubai, Paris e Londres.

"Estamos vivendo uma mudança de paradigma. O Fórum Econômico Mundial chamou a atenção dos líderes mundiais para o risco de uma nova 'geração perdida'. Neste contexto, a criatividade e o desenvolvimento de novas habilidades são fundamentais para garantir empregabilidade ou para fazer um negócio dar certo em nossa cidade. É por isso que estamos orgulhosos ao ver Cuiabá fazendo parte do maior festival colaborativo de criatividade do mundo", afirma Caroline.

No dia 30 de março aconteceu um pré-lançamento do evento para Jornalistas, influenciadores e parceiros. Na ocasião houve uma grande coletiva de imprensa com a participação de parceiros e veículos de mídia em mais de 128 cidades ao redor do mundo. Para mais informações entrar em contato com a líder local pelo e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou telefone (65) 9 8128- 4098.

Todas as atividades do Dia Mundial da Criatividade poderão ser acessadas gratuitamente por meio do canal oficial de cada cidade participante no aplicativo (Android e iOS), ou pela plataforma oficial evento.

Domingo, 28 Março 2021 05:00

O palco agora não tem fronteiras

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Companhias teatrais se reinventam para sobreviver à pandemia. A internet se tornou a maior aliada.

 O sinal toca três vezes, indicando que a peça vai começar. Mas a plateia não está mais reunida. Agora, o público é disperso e tem o tamanho do mundo. A peça de teatro é exibida simultaneamente em várias casas de várias cidades, no Brasil e fora dele.

O "Ensaio sobre a Perda" é um dos diversos espetáculos teatrais que precisaram deixar os palcos e migrar para plataformas digitais por conta da pandemia. Na peça, um casal recebe um comunicado de que foi contemplado em um edital que ambos se inscreveram enquanto ainda eram casados. Apesar do término turbulento, eles decidem retomar o projeto. 

Os teatros, por serem ambientes fechados, com pouca circulação de ar e gerarem aglomerações, estão entre os primeiros espaços que foram fechados, no início da pandemia, em março de 2020, no Brasil. Sem ter onde se apresentar, os artistas precisaram se reinventar. No Dia Mundial do Teatro, celebrado no último dia 27, a Agência Brasil conversou com atores, dramaturgos e produtores que convivem diariamente com esse desafio. 

“Exatamente no dia que a gente ia começar o ensaio, foi anunciado o lockdown e a gente pensou que a pandemia duraria 15 dias. Pensamos que logo retomaríamos o ensaio presencial”, conta o dramaturgo, roteirista e ator Herton Gustavo Gratto, que escreveu e atuou em "O Ensaio sobre a Perda". Não foi o que aconteceu. Com isso, a equipe teve de se reinventar: todo o preparo da peça foi feito à distância, entre Rio de Janeiro e Mato Grosso. E a apresentação também. 

“Foi um processo muito bonito de descoberta de uma nova linguagem. A gente chegou e era tudo mato, eu brinco. Fomos descobrindo como estar no jogo e ao mesmo tempo manipulando e descobrindo imagens e ações. Não estamos fisicamente juntos e a gente contracena o tempo todo olhando para o botão verde da câmera. Porque se você olha para a outra pessoa, quem está assistindo tem a sensação de que está olhando torto. Fomos desenvolvendo uma narrativa, um jogo, onde buscávamos usar as limitações a nosso favor”. 

A internet, segundo Gratto, possibilitou que o espetáculo chegasse a mais pessoas e a lugares onde antes não chegaria. Ele está com outros trabalhos engatilhados. No Dia Mundial do Teatro, estreou Moléstia, espetáculo que já passou pelos palcos, e que agora chega às telas.

“Essa linguagem, que foi descoberta, não vai cair em desuso, mas vai ser mais uma ferramenta. O teatro é insubstituível, mas acho que vem para ficar”. 

Retração e expansão 

O digital entrou definitivamente na vida da diretora Luciana Martuchelli. As aulas e as preparações de atores que antes eram feitas apenas ocasionalmente pelo computador, migraram de vez. “As fronteiras, que eram antes geográficas e físicas, romperam-se. As turmas que eu faria presenciais, a grande maioria migrou para online. Minhas turmas de preparação de ator têm [pessoas] de Porto Alegre, Rio de Janeiro, Colômbia, Peru, Londres, Portugal”, diz. 

“Acho que existe um processo de transformação, de reinvenção, de mudanças, onde as tradições aí estão, mas ao mesmo tempo, abrem-se possibilidades, rompeu-se o lacre”. Luciana, é diretora da TAO Filmes – escola de atores para o teatro, televisão, cinema e música e da Companhia YinsPiração Poéticas Contemporâneas, ambas com sede em Brasília. Ela conta que, antes da pandemia, a companhia estava com a agenda lotada, em turnês pela Europa e América Latina. Tudo precisou ser interrompido. 

A produção foi revisitada. Para viajar mais, a companhia precisou enxugar grandes produções, investir mais em espetáculos com poucos atores e equipe reduzida para viabilizar economicamente os deslocamentos. Por isso, a pandemia trouxe de volta um espetáculo que eles imaginaram que não voltaria a ser exibido: “Sonhos de Shakespeare”. A peça, de 2016, precisa de uma semana apenas para ser montada. Nela, cenas acontecem simultaneamente em um ambiente que simula uma casa. O público fica posicionado no meio desse cenário e pode viver experiências diferentes. O espetáculo foi filmado com cinco câmeras para que tudo ficasse registrado. ”

Quando veio a pandemia, os [espetáculos] pequenos, que não estavam filmados, foram encaixotados. E esse, que pensamos que nunca mais fosse viver, foi a mais de sete festivais nacionais e internacionais, foi comprado por [uma emissora de] TV. Coisa da pandemia. O que vira restrição em um lugar, vira expansão em outro”, diz Luciana. 

Para ela, os artistas têm um papel essencial nesse momento de dor, que é histórico. “O mundo só vai saber o que foi essa época pelos artistas, por toda a produção artística, de música, teatro, cinema, literatura. Tudo que puder, de alguma forma, contar essa história em todos os níveis e camadas que essa história merece ser contada”. 

Redes sociais  

“O teatro parou. Os artistas não. Estamos fazendo arte, nos adaptando. Torcendo pela volta. Não será fácil”, diz o ator Nobu Kahi, de Taguatinga, Distrito Federal. Kahi conta que estava habituado a uma rotina de ensaio de segunda a quinta e de apresentações nos finais de semana. Tudo mudou na pandemia. “Para continuar fazendo arte, decidi utilizar minhas redes sociais. Fazer arte dentro de casa”, revela.

Kahi é ator há dez anos. Antes da pandemia trabalhava na companhia Agrupação Teatral Amacaca, dirigida por Hugo Rodas. Acabou se licenciando da companhia, pedindo um período sabático. Começou, então, a lecionar no ensino público a disciplina Teatro e Cinema. 

Na internet, ele descobriu um universo distinto ao que estava habituado. “Nas redes sociais encontrei um bom espaço para divulgar meu trabalho. Como se eu fosse o dono do meio. Diferente do teatro, que não dá pra fazer sozinho. Na internet eu posso alcançar o mundo dentro do meu quarto. É um local incrível. Inspirador”. Mas, esse espaço, segundo ele, não substitui os palcos. “Teatro só acontece ao vivo. Olho no olho. O que tempos agora são produtos audiovisuais. Algo que flerta com o cinema”, diz. 

Criação na pandemia 

A Companhia Dos à Deux já planejava iniciar uma nova criação antes mesmo da pandemia. No entanto, logo no início do ano passado, Artur Ribeiro e André Curti viram-se em uma imersão em casa, onde têm também uma sala de ensaio. “A gente decidiu entrar em pesquisa, sabendo que seria diferente esse início, porque não tínhamos data de estreia”, diz Ribeiro, que é ator e diretor da Companhia. “Quando não se tem data de estreia, você, então, se coloca como objeto de pesquisa. Isso para a gente foi um momento muito importante. Um momento que a gente foi para a sala de ensaio diariamente e criamos pílulas poéticas, expressando o que a gente estava vivendo a cada dia”, conta. 

Agora, “Enquanto você voava, eu criava raízes” já tem data de estreia, em abril de 2022. “O título entrou como uma metáfora muito bonita dentro disso tudo, porque entre céu e terra, o que estamos buscando agora é um espetáculo de sensações e um espetáculo muito metafórico sobre esse homem que está nessa busca tentando driblar os seus medos num momento tão caótico, quase de fim de um tempo para início de outro”. 

A Companhia recentemente exibiu produções online e, para manter o contato com o público, realizou conversas após as apresentações. “A gente viu que é muito importante, nesse momento, de alguma forma, comunicar. Para a gente foi muito prazeroso isso e acho que de qualquer forma, essa nova maneira de comunicar vai permanecer porque conquistamos novas plateias, que depois que acabar a pandemia a gente vai ter que se comunicar com elas. A gente não pode simplesmente esquecê-las”.

Ribeiro apoia-se no teatro, nas criações, na arte, para viver cada um dos dias. “Estamos à deriva e a gente fica jogando boias e nada até elas. Se a gente ficar nadando no mesmo lugar, a gente vai se afogar. Então, nada um pouquinho, joga a bóia, nada de novo. Assim a gente vai conseguir passar por isso de forma mais lúcida, acredito eu”. 

Broadway 

Em 2020, a Barho Produções preparava-se para trazer para o Brasil o musical “Barnum - O Rei do Show”. Em 2017, o enredo, apresentado na Broadway, foi adaptado para o cinema com o filme Rei do Show, estrelado pelo ator Hugh Jackman. O musical conta a história de Phineas Taylor Barnum, mais conhecido como P. T Barnum, considerado um dos pioneiros do circo. No Brasil, ele será interpretado por Murilo Rosa. 

“Nossa estreia seria em setembro de 2020. Com a chegada da pandemia, um ano atrás, remanejamos para março deste ano, o que infelizmente não foi possível. Estamos aguardando o caminhar da situação para entender a viabilidade e possível nova data junto ao Teatro Opus [em São Paulo]”, diz o diretor de produção Thiago Hofman. 

Somente em dezembro de 2020, seguindo uma série de protocolos de segurança sanitária, foi possível realizar audições e selecionar o elenco, de 200 pessoas. “Ter vivenciado esse processo durante a pandemia nos deu ainda mais força para continuarmos lutando pelo projeto. Em termos de pré-produção já está tudo praticamente pronto e, como tivemos um ano inteiro, todo o processo de criação e planejamento foi muito bem estudado e desenvolvido”, diz. 

Hofman explica que a Barho adquiriu testes rápidos, termômetros, oxímetros, máscaras, álcool gel, divisórias de acrílico para a testagem e acompanhamento recorrente de toda equipe e está estabelecendo parcerias com laboratórios e empresas do segmento de saúde na tentativa de, ainda este ano, retornar aos palcos. Uma das saídas encontradas foi diversificar o portfólio. Eles adquiriram a licença de uma nova peça “4000 Miles by Amy Herzog”, que conta apenas com quatro pessoas no elenco, para minimizar os riscos.  “O que sempre nos motivou e nos motiva a continuar é o fato de levarmos a magia e alegria ao público. Ver o brilho nos olhos no final de cada sessão é impagável! Ficou iminente também durante esta pandemia que a cultura é de extrema importância para a sanidade e crescimento de todo ser humano e por isso continuaremos lutando por mais conteúdo com acessibilidade a todos”, diz. 

Um ator brasileiro em Portugal

O ator e produtor Danilo Bethon viajou para Lisboa, Portugal, em 2017, para fazer um curso de teatro. Não gostou do curso, mas decidiu ficar na cidade e começar a atuar e produzir. Descobriu um nicho, levar o teatro para as escolas. Algo que, segundo ele, no Brasil é mais comum, mas, em Lisboa, era novidade. “Acabei produzindo um espetáculo infantil e comecei a vender. Vendemos para uma escola, que foi nosso teste. Funcionou super bem. Depois disso, outra escola pediu outro espetáculo. Todas as escolas que íamos pediam mais e mais espetáculos”, conta.

 O carro chefe da companhia é o espetáculo “A galinha Nanduca - Uma aventura em Portugal”, livre adaptação da obra de Ganymédes José, sucesso no Brasil de 1983. Nela, dois palhaços, Azambuja e Zé Pelanca, contam a história de Nanduca, uma galinha em busca de aventuras pelo mundo. “Conquistamos Lisboa com esse espetáculo”, diz. 

Foi com a agenda cheia que a Companhia Dona Persona começou o ano de 2020. Mas, com a pandemia, as peças começaram a ser canceladas. “As escolas fecharam, tudo foi cancelado. Estávamos sem previsão nenhuma para nada. Estava escalado para um filme e cancelaram as filmagens”, conta. “Vem a questão financeira. Estávamos preparados para um ano de espetáculos. Começamos a investir nas produções porque sabíamos que receberíamos de volta. Quando chegou a pandemia, tínhamos investido toda a grana que a gente tinha. Sobrou um pouquinho por mês para pagar o aluguel e comprar o básico do mercado”. 

As escolas chegaram a reabrir no final do ano e a companhia pode fazer apresentações de natal. Mesmo a apresentação presencial precisou ser diferente, com público reduzido. Um espetáculo que seria apresentado uma única vez na escola, agora precisou ser apresentado até seis vezes, para que todas as crianças, divididas em grupos menores pudessem assistir. 

Bethon tem participado de editais, conseguiu apoio para outros projetos e abriu espaço para experimentar o teatro pelas telas. “Estamos tentando gostar, aprendendo a gostar dessa linguagem online. A gente sabe que consegue atingir muito mais pessoas. Mas é difícil prender a pessoa na tela do computador”, diz. Para ele, o futuro do teatro não está tanto nas telas, mas em voltar ao início, voltar para às ruas, como eram os primeiros espetáculos teatrais, para evitar aglomerações em espaços fechados. “Acho que a solução vem lá de trás. Que lindo vai ser ter mais teatro nas ruas”. 

Impactos no setor 

“O impacto da pandemia é totalmente negativo. A gente não tem os palcos liberados, não podemos nos apresentar. Nós vivemos de aglomeração. O público nada mais é do que aglomerados que se juntam com um objetivo comum, de assistir a um espetáculo, seja de dança, de teatro. Uma das principais, senão a principal, profilaxia da covid-19 é o distanciamento”, diz o presidente da Associação dos Produtores de Teatro (APTR), Eduardo Barata. 

Desde março, os teatros estão fechados em todo o país. Muitos migraram para a internet. O retorno econômico, no entanto, de acordo com Barata, não é suficiente para manter todas as equipes. “O setor está completamente fragmentado economicamente. A internet se abriu como possibilidade de expressão artística, mas não de mercantilização. Não se consegue sustentar e manter de forma digna não apenas a cadeia produtiva criativa, mas a cadeia produtiva do setor cultural através da internet”, diz. “A economia do setor não é mantida através das ações que são feitas na internet. A gente não tem estrutura. As pessoas não têm o costume de pagar”, acrescenta. 

Dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) indicam que o setor de economia criativa no país, que inclui o teatro, contribui, diretamente, para cerca de 2,61% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e 1,8% do total de empregos do país. 

Com a pandemia, houve a redução média de 43,9% do volume de produção das atividades, a expectativa é que o PIB do setor encolha 31,8% em 2020 e que, em 2021, fique 4,5% abaixo do resultado de 2019. Isso significa uma perda de R$ 69,2 bilhões, ou 18,2% na produção total do período. As informações são da Pesquisa de Conjuntura do Setor de Economia Criativa – Efeitos da Crise da Covid-19, conduzida ano passado pela  Fundação Getulio Vargas (FGV) Projetos, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo. 

A pesquisa aponta também que o setor de economia criativa é composto, em grande parte, por micro e pequenas empresas e profissionais autônomos, formalizados ou não, que não possuem capital de giro suficiente para suportar grandes períodos sem faturamento. Ao todo, 88,6% indicaram ter sofrido com queda do faturamento. 

“Há de se ter ações de sobrevivência para o setor cultural e artístico, para o setor teatral. Não tem como sobreviver economicamente sem que o poder público atue de forma expressiva e significativa para tentar manter a sobrevivência dos profissionais da cultura e das artes”, diz Barata. 

A retomada de ações de fomento é uma das propostas para a retomada do setor feitas na pesquisa da FGV Projetos. Os pesquisadores propõem ainda a facilitação do acesso a crédito, a renegociação de dívidas de impostos, a renegociação de empréstimos e créditos concedidos e a preparação para o novo mercado de consumo pós covid-19. 

 

A Assembleia Geral das Nações Unidas na sua resolução 66/281 de 12 de julho de 2012 proclamou 20 de março o Dia Internacional da Felicidade, reconhecendo a relevância da felicidade e do bem-estar como objetivos e aspirações universais na vida dos seres humanos em todo o mundo e a importância de seu reconhecimento nos objetivos de política pública.

Em 2015, a ONU lançou os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável , que buscam erradicar a pobreza, reduzir a desigualdade e proteger o planeta - três aspectos essenciais que levam ao bem-estar e à felicidade.

Mas, depois de um ano de pandemia, é preciso de uma dose extra de esforço para lidar com as emoções que bloqueiam e diminuem a felicidade, dizem os especialistas.

Na opinião do professor da Felicidade da Universidade de Brasília (UnB) Wander Pereira, é possível comemorar a data no período de pandemia e em outros momentos de incertezas. “A vida é feita de situações e momentos distintos e cada um deles requer um tipo de emoção e sentimento. É lógico que diante das perdas de vidas humanas (próximas ou não) de uma forma tão dramática como a que vivemos, não há como não ficar triste indignado e até revoltado, mas a vida não é só isso”, destaca Pereira, doutor em psicologia pela UnB. Ele completa:

“Felizmente, a vida segue e cada um de nós tem pais, filhos, namoradas, namorados, maridos, esposas, amigos, casa, trabalho, etc. Ou seja, uma vida para cuidar, então é preciso estarmos aptos a desfrutar das situações de felicidade. A infelicidade que a pandemia nos trouxe não pode contaminar as outras coisas boas da nossa vida, portanto, o Dia Internacional da Felicidade é um dia para celebrar sim!”

No entanto, diante da realidade posta, não é aconselhável negar as emoções negativas, explica o professor. “As grandes catástrofes nos impõem medo, insegurança e incerteza, e isso é normal, quem não sentir isso está meio fora da curva. Não é recomendável renegar as emoções ditas negativas, devemos abraçá-las e nos engajarmos para transformá-las em vivências significativas! Aquele tipo de atitude que melhora o nosso modo de lidar com elas.

Uma dica é não ficar parado, estacionado na tristeza. Mova-se, comece com pouco, mas faça o melhor com o que você tem!”

Relacionamentos e a felicidade

O isolamento social que a pandemia exigiu levou ao distanciamento social entre as pessoas em geral, mas levou a aproximação entre os casais e os núcleos familiares mais íntimos. No entanto, essa aproximação pode ter levado ao aumento da separação entre casais. O número de divórcios consensuais realizados pelos cartórios de notas do país, durante a quarentena decretada pela pandemia do novo coronavírus, entre os meses de maio e junho deste ano, aumentou 18,7%.

“Possivelmente, os relacionamentos que já estavam adoecidos antes da pandemia não tenham resistido a esse período. Mas, muitos relacionamentos foram 'reformados', reinventados e outros tantos começaram em meio à crise. Ouço as pessoas falando que a pandemia trouxe uma oportunidade de reflexão para a humanidade e discordo disso. A humanidade é um conceito etéreo, a pandemia está sendo uma grande oportunidade para cada um de nós como pessoas. Para iniciarmos aquele processo de transformação que, por comodismo, vínhamos ‘empurrando com a barriga’, a hora é agora”, opina o professor.

Segundo ele, este é o momento ideal para o autoconhecimento. “Em momentos extremos nossos sentimentos mais básicos afloram, tudo ganha outra magnitude, então aproveite para se conhecer melhor, se aprimorar e se preparar para viver relacionamentos mais saudáveis, mais verdadeiros”, orienta.

Dinheiro não traz felicidade?

A velha máxima de que "dinheiro não traz felicidade" ganha outro sentido durante a pandemia, época em que grande parte da população passa por crise financeira e milhares ficaram sem emprego e renda. Na opinião do professor, dinheiro é importante, mas não é tudo.

“Ter muito dinheiro não é garantia de felicidade. O problema é que, sim, pouco dinheiro nos deixa infelizes. Os países com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos também são os piores nos rankings de felicidade. Porém, o grande diferencial é o jeito com que você vive sua vida, a pesquisa de Havard Study of Adult Development (a mais longeva sobre felicidade) conclui que, para nos mantermos felizes e saudáveis ao longo da vida, é preciso investir na qualidade dos nossos relacionamentos sociais”.

Ele destaca que é preciso solidariedade e força de vontade política para atenuar a situação dos mais afetados pela falta de dinheiro. “É importante que no pós-pandemia todos nós tenhamos essa preocupação com as pessoas que perderam seus empregos e sua renda, sermos solidários, mas é óbvio que será preciso políticas sociais dos governos para atenuar a situação”.

Na sexta-feira (19) a ONU divulgou o Relatório Mundial de Felicidade no qual o  Brasil ocupa agora o 41º lugar, nove posições abaixo do ranking de 2020. A nota atribuída ao Brasil, baseada em dados de 2020, é de 6,110. Essa é a menor média para o país desde 2005, quando o instituto de pesquisas começou sua avaliação.

O relatório também apontou que a infelicidade aumentou no mundo todo, tendo havido maior insegurança econômica, ansiedade, perturbação de todos os aspectos da vida e, para muitas pessoas, estresse e desafios para a saúde física e mental. “O pior efeito da pandemia foram 2 milhões de mortes por covid-19 em 2020. Um aumento de quase 4% no número anual de mortes em todo o mundo representa uma grave perda de bem-estar social”, afirma o documento.  O relatório é feito anualmente para analisar a percepção do sentimento em 153 países. A Finlândia é o país mais feliz do mundo, pelo quarto ano consecutivo.

Felicidade da população feminina

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, um fenômeno batizado como “paradoxo da felicidade feminina” mostra que, apesar de todas as conquistas ao longo dos anos, as mulheres estão mais infelizes. É o que diz uma pesquisa feita pela organização CARE, que mostrou que elas têm quase três vezes mais probabilidade de relatar ansiedade, perda de apetite, incapacidade de dormir e dificuldade em concluir as tarefas diárias.

Para chegar a esse resultado, foram ouvidas mais de 10 mil pessoas em 38 países, incluindo os da América Latina. O levantamento foi feito pela CARE Internacional, uma rede que possui mais de 60 anos de experiência em ajuda humanitária e no combate à pobreza.

As causas são diversas e ampliadas com a pandemia. Dos milhões de demissões observadas nos primeiros meses de pandemia, as mulheres formaram o maior grupo, tanto em países desenvolvidos quanto nas nações em desenvolvimento. Ainda há a discrepância na divisão do trabalho doméstico.

Pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mostrou que 63% das mulheres fazem trabalhos relativos aos cuidados com a casa contra apenas 23% dos homens.  No acompanhamento da escola remota, quase toda a carga da atenção às crianças é novamente delas, a pesquisa apontou que 71% eram mulheres e apenas 19%, homens.

E com mais um ano de pandemia pela frente, é preciso resiliência e conhecimento para que as mulheres sejam felizes, apesar do momento delicado e das adversidades da vida. “A felicidade não deve ser alicerçada em condições externas – isso a torna quase inviável. Ela é uma construção feita sobre dois pilares: a vivência de mais emoções de valência positiva que negativa e a percepção de se ter uma vida significativa. O segundo pilar – da vida significativa, do propósito – é o que nos sustenta diante dos desafios”, aponta a pesquisadora Carla Furtado, fundadora do Instituto Feliciência.

Neste momento, o desenvolvimento da resiliência é um fator positivo. “A resiliência é compreendida como a habilidade de navegar em busca de recursos para funcionar de maneira positiva em situações adversas: sem adoecer a médio e longo prazo. Manter-se em situações tóxicas não é o desfecho esperado de um processo de resiliência. Não se deve acreditar no mito de que suportar toda e qualquer situação é sinônimo de resiliência. O que se espera como desfecho saudável é: recuperação, adaptação ou transformação positivas”, explica Carla.

Segundo a pesquisadora, mudar o “paradoxo da felicidade feminina” é um trabalho coletivo, de homens e mulheres. “Para mudar essa realidade é preciso real equidade de gênero, seja no ambiente profissional ou familiar. Tomemos a pandemia, por exemplo, as mulheres estão sobrecarregadas com trabalho, cuidados com a casa e acompanhamento de atividades escolares dos filhos. Elas têm quase três vezes mais probabilidade de relatar ansiedade, perda de apetite e incapacidade de dormir”, destaca.

Com a pandemia, a vulnerabilidade das mulheres tornou-se ainda mais evidente. Para encarar mais um ano de pandemia, a pesquisadora recomenda atenção redobrada à saúde mental, a partir da adoção de práticas protetivas. “Destaco aqui a importância do descanso, em especial do sono restaurador. Não é normal dormir pouco, pode ser usual, mas não deve ser considerado normal. O estabelecimento de uma rede de apoio é outra medida essencial, a travessia ainda não acabou e teremos maior resistência ao lado de pessoas significativas. E diante da impossibilidade de lidar efetivamente com a rotina há sempre possibilidade de buscar assistência especializada”, finaliza a especialista.

 

Uma em cada duas pessoas no mundo discrimina em função da idade, diz um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado no último dia 18, com recomendações aos governos para que adotem medidas jurídicas e sociais para combater esses preconceitos.

O relatório, elaborado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em colaboração com várias agências da ONU, destaca que esse tipo de discriminação "contribui para a pobreza e a insegurança econômica das pessoas na velhice", aumentando o isolamento social e a solidão dos idosos.

O estudo, com que a ONU espera lançar uma campanha mundial, conclui que esse tipo de discriminação se verifica sobretudo nos jovens, é mais frequente nos homens que nas mulheres e em pessoas com menos formação.

O chamado "idadismo" pode traduzir-se em várias formas de discriminação, diz o estudo, a começar pelo acesso a serviços de saúde, presente no início da pandemia de covid-19, quando hospitais saturados optaram por salvar pacientes mais jovens, perante a escassez de ventiladores ou de camas nas unidades de cuidados intensivos.

"Falamos de idadismo quando a idade é utilizada para categorizar e dividir as pessoas de forma a que eles sofram preconceitos e injustiças", afirma o relatório, acrescentando que o fenômeno "reduz a solidariedade entre gerações".

O relatório, de 203 páginas, aponta ainda a existência de discriminação contra os jovens, com os estereótipos a prejudicarem nesse caso mais as mulheres do que os homens.

Segundo o documento, na Europa - única região com dados disponíveis -, uma pessoa em cada três disse ter sido vítima desse tipo de discriminação. Jovens afirmaram que sofrem mais com esse fenômeno do que outros grupos etários.

A ONU estima que esse tipo de discriminação custe anualmente milhões de dólares, citando como exemplo as reformas baseadas em critérios rígidos de idade, que privam a sociedade da experiência das pessoas mais velhas.

A pandemia contribuiu para agravar os estereótipos, lembraram em carta conjunta o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, e a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet.

"Temos de combater o idadismo durante e após a crise [sanitária] se queremos garantir a saúde, o bem estar e a dignidade das pessoas em todo o mundo", afirma o documento.

 

Quarta, 17 Março 2021 10:41

“A humanidade sempre encontra uma saída”

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Segundo o geneticista, presidente da Liga Nacional do Câncer, talvez nunca acabemos com a Covid. Mas o humanista continua confiante em nossa capacidade coletiva de enfrentar a crise sanitária global.

 A entrevista é de Olivia Elkaim, publicada por La Vie, 10-03-2021. A tradução é de André Langer.

Desde o início da pandemia, o geneticista Axel Kahn assumiu publicamente uma posição pela proteção dos mais vulneráveis, especialmente as pessoas com câncer, bem como pela universalidade da vacina anti-Covid, após apelar ao governo para impor o uso da máscara em locais públicos. Conversa com um humanista que defende o uso da razão mais do que nunca nestes tempos de crise e que acaba de publicar: Et le bien dans tout ça?, Stock (E o bem em tudo isso?).

 Eis a entrevista.

 E aqui estamos, um ano após o início da pandemia. O que aprendemos sobre nós mesmos?

O tempo da imprudência dificilmente pode durar, não pode ser definitivo. Do ponto de vista econômico, e agora sanitário, estamos saindo de um período que começou após a Segunda Guerra Mundial e foi marcado por um otimismo temerário.

O que ainda não compreendemos?

Nunca compreenderemos totalmente as turbulências da alma humana. Eu tenho 76 anos. Passei parte da minha vida tentando dar explicações para que meus semelhantes, cidadãos, crianças nas escolas, pudessem compreender melhor os fenômenos ao seu redor e os desenvolvimentos científicos. Valorizei a abordagem da razão, tentei persuadi-los de que não se podia contestar o uso da razão, da lógica, para argumentar em um debate. Mas durante esta pandemia, assistimos a uma explosão extraordinária das posições mais irracionais, de formas de agressão à razão. Pude dizer a mim mesmo que era a negação e o fracasso daquilo a que dediquei minha vida.

Você se arrepende?

Sim, essa é uma observação totalmente triste. O que nós perdemos, mulheres e homens da minha geração? Há um recuo significativo do uso da razão em comparação com quando eu tinha 30 anos.

Esta pandemia parece, de fato, desafiar a razão...

Não! Tudo é razoável. A melhor prova é que cometi poucos erros ao prever seu futuro. Fiz apenas um, e grande: em março de 2020, pensei que, como a gripe espanhola, esse vírus iria nos atacar e ir embora, que não ouviríamos falar nele novamente. Não estou mais convencido disso hoje. Talvez tenhamos que conviver com esse vírus. Não deixando isso acontecer, é claro. Uma marca registrada do “mundo pós-pandemia” pode ser que nunca conseguiremos erradicar a Covid.

Portanto, mergulhamos em um mundo em que teremos que conviver com as epidemias.

Mas esse sempre foi o caso! A última pandemia – a gripe de Hong Kong – foi há 50 anos. Nós a tínhamos esquecido... Porém, desde que há homens sobre a terra, sempre houve grandes pandemias que, às vezes, mataram 30% da humanidade. Nada de novo!

O que há, então, de novo desde o ano passado?

A realidade do mundo reapareceu de repente para nós em sua dureza e incerteza. No entanto, a despreocupação e o otimismo foram gradualmente desmoronando com as dificuldades da construção europeia, as crises econômicas, a crise dos subprimes em 2008. Estamos agora enfrentando este flagelo sanitário.

Este ano, você defendeu o fato de que não devemos confinar apenas os idosos. Mas não temos feito os jovens pagarem por esta epidemia, com dramáticas consequências psicossociais?

Nesta fase da evolução das nossas sociedades, moral, médica e tecnicamente, isso não é possível. Se deixar os idosos em um canto tivesse evitado a crise econômica, social, psicológica, eu diria: por que não? Mas os países que tentaram fazer isso falharam.

Há uma questão ética subjacente: devemos “proteger” os idosos dando prioridade à proteção da saúde, ou devemos “proteger” os jovens priorizando a economia, o emprego e a educação?

 A pergunta é absurda! A Suécia é um bom exemplo: o país deixou os jovens viverem; os velhos morreram em massa. Seu PIB entrou em colapso. O número de mortos é até 10 vezes maior nos países vizinhos. É um desastre total. Os únicos países que protegeram idosos e jovens são aqueles que adotaram a estratégia “Covid zero”. A única que funcionou. Qualquer que seja o custo, a princípio essa estratégia visava erradicar o vírus, depois ser implacável contra todas as suas reinfiltrações: Nova Zelândia, Austrália, Tailândia, Coreia, Japão e China adotaram essa estratégia. Hoje, os jovens nesses países dançam nas boates, trabalham, vão à escola, à universidade e têm 100 vezes menos mortes.

Na França, o executivo adota uma estratégia entre duas águas.

O único esforço real que fizemos foi o primeiro confinamento de março a maio. Ao final, ocorreram 15 mortes por dia. Mas não conseguimos manter este resultado: não tínhamos testes suficientes; o “testar, rastrear, isolar” só funciona quando a circulação viral é muito baixa. Em novembro, estávamos confinados com o objetivo de atingir 5.000 pessoas infectadas por dia. Em dezembro, relaxamos com 10.000 contaminações diárias. O Presidente da República mudou de ideia. Atualmente, a opção política é manter uma alta circulação viral. O preço a pagar em termos de saúde é significativo.

Os franceses estão exasperados com as restrições.

Eu entendo perfeitamente. O mais exasperador é que não há perspectiva de sair do túnel. A alternativa atual? Bicicleta, trabalho remoto, cama. Ou seja, uma vida diminuída, com um preço social e econômico considerável.

O paradoxo do confinamento estrito é que ele preserva a vida biológica. Mas ainda é realmente vida quando não há mais relações sociais?

Não podemos viver com o vírus. Para que a vida social e cultural seja retomada, é preciso controlá-lo. Para que teatros, universidades e restaurantes reabram, é necessária uma baixa circulação viral.

Você defendeu as pessoas mais frágeis, especialmente aquelas com câncer. Mas uma política de confinamento rígida levou a enormes problemas de saúde pública, com cânceres não detectados e mortalidade excessiva...

É pior agora! A tensão nos hospitais persiste, o plano de urgência foi reativado, os surtos epidêmicos são deplorados em alguns estabelecimentos de saúde. Potenciais pacientes ainda não foram detectados. Substituímos um esforço concentrado de algumas semanas por um ano de privação e tensão. Alguns analistas econômicos demonstraram que a melhor solução financeira, sanitária, social e psicológica seria erradicar a doença, por meio de contenção rígida, e depois retomar uma vida sem esse vírus.

Você não mudou sua linha sobre a necessidade do confinamento generalizado.

Eu não faço política. Mas não acredito que as escolhas atuais sejam boas do ponto de vista da saúde. Nem para os 100 mil mortos que teremos de deplorar no final, nem pelos pacientes com câncer que cuido na Liga, nem pelo estado psicológico dos franceses. Somente o primeiro confinamento permitiu o colapso da circulação viral. Mas compreendo as escolhas dos políticos face à exasperação dos cidadãos que temem que não apoiarão novas restrições.

Como permanecer “razoável e humano”, nas palavras de seu pai, o filósofo Jean Kahn, diante da complexidade dessa crise?

Antes do seu suicídio, meu pai me disse para sempre usar minha razão. No contexto desta crise, isso não requer uma reflexão profunda. Aperfeiçoamento das técnicas de atendimento, novos protocolos médicos, decisões para pacientes em final de vida, ensaios clínicos, tudo isso exigiu o uso da razão e a consideração da realidade da vida humana.

Seu livro intitula-se E o bem em tudo isso? O que você quer dizer com “o bem” e como isso se reflete na gestão da epidemia?

O bem é materializado no respeito e na preocupação pelos outros. Tudo o que põe em perigo a segurança, a saúde, a autonomia e a liberdade das pessoas é mau. A indiferença se situa entre os dois, mais do lado do mal, na minha opinião. No contexto da pandemia, sempre que é promovido um método que limita os constrangimentos das pessoas ao mesmo tempo que preserva as suas vidas, que não considera que podemos sacrificar certas categorias de pessoas, estamos do lado do bem.

Neste período de incertezas, quando o sofrimento psicológico dos franceses é persistente, a que podemos nos agarrar?

No início da crise, falava-se com certa ingenuidade do “mundo pós-pandemia” que era para ser alegre, fraterno, onde se promoveria a saúde e se combateria o capitalismo selvagem. Eu sempre pensei que o “mundo pós” seria como o “mundo de antes” e pior. A felicidade será possível? Sim! A humanidade encontrará outras maneiras de desabrochar? Os casais podem se amar e ter filhos? Sim! A vida e a riqueza de projeção do espírito humano, nossa capacidade de abraçar o mundo com ternura e amor são razões para permanecermos otimistas. Enquanto houver uma pequena faísca, o fogo pode crepitar novamente.

 Há alguns anos, você cruzou a França a pé, encontrando um país abandonado e os mais vulneráveis. Como você vê nossos concidadãos que oscilam entre o desgaste e a resiliência?

Há continuidade entre minha análise atual da situação e minhas observações como caminhante durante essas duas travessias da França. Descobri territórios abandonados, pessoas sem esperança que se separaram de todas as formas de racionalidade administrativa e política. Isso abrange os territórios de onde vieram os “coletes amarelos”, que então se viram entre a massa de pessoas que negava a palavra das autoridades públicas e sanitárias durante esta crise. Essas pessoas não acreditam mais na República, nem nos seus representantes, nem em Paris ou na Europa. Eles responsabilizam todos os detentores de poder.

Mas o conhecimento confere poder. Tudo o que vem das autoridades, acadêmicas ou estatais, é engano a ser rejeitado por essas pessoas em secessão que, em massa, seguiram Didier Raoult. Há uma continuidade marcante, nas redes sociais, entre os “coletes amarelos” e os adeptos deste último. As populações carentes, as mais revoltadas, estão atualmente no mesmo processo de secessão que observei durante as minhas marchas.

Com a pandemia, a reflexão ética foi minada pela urgência da situação, pois levantou questões importantes como a triagem de pacientes e o alívio de pessoas em final de vida em casas de idosos. Essa crise mudará nossa relação com a ética médica?

 De modo algum. Como jovem estagiário, tive momentos de grande afluência de pacientes no hospital e já tinha que saber quais atenderia prioritariamente. A priorização é indissociável da medicina. Na terapia intensiva, durante toda uma parte da minha vida, fui confrontado com uma implacabilidade irracional, com pessoas que tenho que decidir se reanimo ou não.

Essas questões reapareceram durante esta crise...

Do ponto de vista dos pacientes, sim, mas não do corpo médico.

Você escreve que é agnóstico. No que exatamente acredita?

Não me coloco a hipótese de uma transcendência. Para mim, o espírito é imanente. A incrível capacidade dos espíritos humanos, sua comunhão, a habilidade de abraçar a beleza do mundo, de vibrar com ela, isso me faz estremecer e chorar. Eu experimentei isso em várias ocasiões. Em Conques, depois que o irmão Jean-Daniel nos mostrou o Juízo Final do tímpano da basílica, entramos nele. Ele tocou o órgão sob uma luminosidade composta. Era lua cheia, os últimos raios de sol apareciam atrás dos cumes do Rouergue, tudo isso passando pelos vitrais de vidro soprado de Soulage...

Estou encostado em uma coluna e tomado pela música. Este é um estado de emoção intensa, uma experiência do sublime. Mas eu sou agnóstico! Nesse momento, estou cercado por centenas de peregrinos crentes, mas não há a espessura de uma folha de papel de cigarro entre a minha emoção e a deles.

E na natureza, você já experimentou o sublime?

É claro! Certa vez, descendo o ponto mais alto do Cézallier, no Maciço Central, a 1.500 m de altitude, eis que me deparo com um grande prado deserto. De repente, estou diante de um campo de orquídeas selvagens que se estende até onde a vista alcança. Algumas estão fechadas como punhos juvenis e desajeitadas; outras têm as mãos estendidas, rosas, lilás, listradas. Com o vento dos picos, é Shiva que tenta me seduzir. Estou estupefato! Incapaz de dar mais um passo por medo de esmagar uma.

Uma ideia me atravessa – aplica-se a este momento difícil que estamos enfrentando: enquanto no mundo tal beleza existir e for entendida como tal, o infortúnio absoluto não pode existir na terra. Esta é especialmente a minha esperança. Após o primeiro confinamento, fui para a floresta. Certamente, os junquilhos, os narcisos tinham passado, mas era época de columbinas, orquídeas, lírios do vale, aspargos silvestres; era maravilhoso. Enquanto for possível, haverá um futuro desejável e óbvio. Eu acrescentarei: enquanto homens e mulheres puderem ver seus olhos brilharem de desejo, haverá um futuro nítido.

O que lhe resta de sua juventude católica?

O catolicismo é minha terra natal. Mas não me coloco a hipótese do bom Deus e não acredito na vida eterna. Quando eu morrer, minha imagem se desvanecerá. A ideia de que as margaridas vão crescer perto do meu túmulo, nutridas pelas moléculas do meu corpo podre, é o suficiente para me fazer feliz.

Você perdeu a fé aos 15 anos, mas não rejeita tudo...

O humanismo cristão merece ser preservado e refundado sem pressupor a transcendência. Esta é a jornada intelectual da minha vida.

Você está preocupado com o período atual?

Tenho certeza de que ficaremos bem porque a humanidade sempre encontra uma saída. Resistimos à peste negra e vamos resistir à Sars-Cov-2! Mas teremos que reconstruir. Vamos reconstruir, vai ser lindo e vamos nos amar!

 “Seja razoável e humano”

 Neste ensaio, Axel Kahn tenta definir o bem, confronta-o com as descobertas científicas que levam ao transumanismo e à esperança louca da imortalidade. Ele também questiona o lugar do bem no espaço público, no campo das decisões políticas, especialmente neste período de crise sanitária. “Estamos embriagados com uma sensação de invulnerabilidade”, lamenta. Este vírus nos coloca frente a frente com a nossa finitude. É para o nosso bem? Por fim, e estas são páginas mais íntimas, o geneticista questiona a forma como poderia e soube responder à injunção de seu pai, o filósofo Jean Kahn, antes que este se suicidasse em 1970: “Seja razoável e humano”. Um livro denso e rico em matéria para a reflexão sobre a pandemia.

 

Digital e tecnologia: “Mais do que conhecimento técnico, é preciso sabedoria”.

Aquilo que foi vivido durante os meses da pandemia “foi um teste de estresse significativo do potencial, mas também do poder da máquina em relação ao humano”. Essa convicção é do Pe. Luca Peyron diretor do Serviço para o Apostolado Digital da Arquidiocese de Turim, na Itália, ao aprofundar as oportunidades e os desafios introduzidas pelas tecnologias. Um contexto no qual “a Igreja também deve se esforçar para que coisas boas aconteçam”.

A reportagem é de Alberto Baviera, publicada por Servizio Informazione Religiosa (SIR), 02-09-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Celebra-se nessa terça-feira, 9, a 18ª edição do Dia da Internet Segura, o dia mundial para uma utilização positiva das tecnologias e a prevenção dos riscos. Os meses de restrições e a impossibilidade de uma frequentação presencial de serviços e relações vividas em 2020 por causa da Covid-19 nos mergulharam ainda mais nesse mundo que apresenta oportunidades e perigos não só para os nativos digitais.

“A pandemia nos tirou a corporeidade, e a tecnologia nos iludiu que poderia recuperá-la. Mas não é assim”, afirma o Pe. Luca Peyron, diretor do Serviço para o Apostado Digital da Arquidiocese de Turim, com o qual procuramos analisar os diversos aspectos em jogo.

Eis a entrevista.

Pe. Peyron, no ano passado, a pandemia nos forçou a estar mais distantes e nos induziu a estar mais conectados. Talvez nunca como nos últimos meses, a internet entrou tão prepotentemente nas nossas vidas...

A internet tem duas faces: uma técnica, porque é uma série de máquinas conectadas por meio de cabos submarinos e satélites que falam um mesmo código; mas é também um ambiente em que vivemos, nos movemos, estudamos, discutimos, contamos a nós mesmos e ouvimos o relato dos outros. Essas duas faces estão conectadas entre si. Na pandemia, assistimos a uma hipertrofia da máquina em relação ao ambiente, porque ela nos forçou, de alguma forma, a nos adequar à tecnologia da qual dispúnhamos para transformar a nossa existência.

Nós mudamos?

Transformamos o modo como vamos à escola ou à universidade, o modo como estamos em contato com os nossos entes queridos e o modo como vivemos as nossas relações, até transformar o modo como nos sentimos como Igreja e vivemos, por exemplo, a celebração dos sacramentos. Acredito que a pandemia foi – e em parte ainda é – uma máquina do tempo que nos levou 10 anos para a frente. Com o fim da pandemia, não vamos voltar 20 anos para trás; provavelmente nos posicionaremos em uma fase intermediária. Este foi um teste de estresse significativo do potencial, mas também do poder da máquina em relação ao humano. Este é o kairós a ser captado: a partir desse teste de estresse, o que podemos entender sobre o futuro que já vivemos?

Que resposta você dá?

Precisamos muito mais de sabedoria do que de conhecimento técnico. A verdadeira lacuna que a pandemia evidenciou não está apenas no fato de que algumas famílias não tinham um dispositivo ou uma conexão. O problema está na sabedoria e na sapiência com as quais habitamos um ambiente. Por isso, não devemos cometer o erro de pensar que utilizar a máquina conectada nos restitui automaticamente a sapiência de estar em um ambiente. Não é assim, até porque a máquina não é apenas um instrumento, mas também um agente: é um dispositivo, isto é, põe as coisas em ordem. Portanto, usá-lo ou não nos muda, assim como nos muda o fato de sermos usados por ele.

Esse aspecto lembra a importância da proteção dos usuários na sua complexidade...

Precisamos de uma dupla segurança. Por um lado, a técnica, que significa instrumentos invioláveis no que diz respeito à privacidade, aos nossos dados, impossibilitando a intromissão de terceiros nas conversas, a espionagem industrial, a manipulação dos dados, da realidade, dos contextos. Mas, depois, há uma segurança que deve ser garantida a quem tem mais fragilidades nesse ambiente: crianças, menores, pessoas culturalmente menos estruturadas, mas também os imigrantes digitais. Dificilmente imaginamos que uma tela possa esconder uma armadilha. E, se na vida de todos os dias, podemos ser desconfiados, na rede o somos muito menos. Mas quantas narrativas fictícias podem existir na web!

O slogan que acompanha o Dia da Internet Segura é “Juntos por uma internet melhor”. O que cada um de nós pode fazer?

Pode parecer um contrassenso, mas devemos recuperar a corporeidade. De fato, uma internet melhor juntos é possível se nos dermos conta de como é necessário salvaguardar, preservar e potencializar o conceito de bem comum, que só existe na realidade da nossa corporeidade. Só uma cultura do bem comum é capaz, a partir dos indivíduos, de gerar um ambiente no qual o bem seja posto em comum. O digital e a tecnologia são espelhos do humano, e é somente na medida em que o humano é consciente de si mesmo que o seu espelho pode lhe devolver algo positivo. Iludir-se que é possível mudar um sem mudar o outro é viver desencarnados, mas isso, como sabemos, é uma heresia para nós.

O Serviço para o Apostolado Digital, fundado por você por mandato do arcebispo de Turim, se insere nessa reflexão. Como ele nasceu e como se desenvolveu?

Reagimos a um pedido da Igreja universal que veio do Sínodo sobre os jovens, conectando-a com outro pedido explícito que o papa fez em Florença, durante o Congresso Eclesial. Assim, no âmbito da Pastoral Universitária da Arquidiocese de Turim, nasceu o Serviço Diocesano para o Apostolado Digital e, dentro dele, o projeto “Rerum Futura”, que reúne jovens católicos, judeus e muçulmanos para refletirem juntos sobre esses temas. O objetivo é duplo: entender como a tecnologia funciona e o que isso significa para a humanidade; e trazer essa reflexão para dentro da Igreja e levar para fora a reflexão que a Igreja faz.

Que acolhida vocês tiveram?

Há um entusiasmo crescente, ad intra e ad extra. Dentro da Igreja, há evidentemente perplexidade e preocupação, dentro daquela mudança de época que o Papa Francisco narrou. A Igreja deve ler os sinais dos tempos, e o Apostolado Digital tenta acompanhar a reflexão sobre esse âmbito, que já não é tão pequeno. Pelo contrário, do ponto de vista cultural, é enorme. O grande desafio do trans-humanismo está ligado à tecnologia, e não a outra coisa.

E fora da Igreja?

Também aí existe a mesma perplexidade. Mas há também uma predisposição à escuta daquilo que a Igreja tem a dizer, totalmente inédita em relação aos últimos séculos, eu diria. Esta é, portanto, uma ótima oportunidade de diálogo Igreja-mundo reciprocamente fecundo. Nos últimos meses, estabelecemos colaborações com mundos muito diferentes e muito distantes. E é interessante notar como é desejado e esperado o pensamento de quem tem sobre as costas uma bagagem de teologia, filosofia e antropologia como o nosso.

Voltando ao âmbito eclesial, o que está se movendo?

Há uma sensibilidade crescente, um fermento significativo. E também uma pequena conversão, no sentido de que sempre relegamos a internet às comunicações sociais. Não se trata apenas do site da paróquia ou da página da paróquia no Facebook, há muito mais. Porque a internet não é apenas redes sociais, é também Inteligência Artificial, a internet das coisas, o blockchain. Há poucos dias, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que “o futuro digital da Europa está contido em duas palavras: dados e inteligência artificial”. Se for assim, onde as raízes cristãs da Europa entram em jogo? Talvez, entrem em jogo muito mais nesses contextos, nesses arranjos, nas normativas e nos investimentos relativos, do que em congressos sobre as raízes cristãs da Europa.

Um belo desafio…

A Igreja deve ser “Mater et Magistra”. Não pode ser apenas mestra. E ser mãe significa ser generativa: de um olhar, de uma perspectiva, de uma projetualidade, de um horizonte. Não podemos esperar que as coisas aconteçam para depois julgar se são boas ou más. Este é o tempo em que a Igreja deve se esforçar para que coisas boas aconteçam. Porque, quando acontecem coisas ruins, o julgamento do que aconteceu muitas vezes é tardio, ineficaz, ineficiente e pouco ouvido.

 

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